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Cinemas

Vox Lux (New York City Center – sala 09 Vip)

Celeste (Natalie Portman) é uma menina que sobrevive após uma grande tragédia, o que a torna conhecida nacionalmente. Após um tempo, ela se lança como cantora e alcança o estrelato.

 

Ator de filmes como Violência GratuitaMelancolia e Acima das NuvensBrady Corbet vem se aventurando na direção nos últimos tempos. Em 2015, lançou A Infância de Um Líder, estrelado por Bérénice Bejo e premiado no Festival de Veneza daquele ano. Agora, com apenas 30 anos, chega com Vox Lux.

Os dois projetos como diretor e roteirista mostram que Corbet é um nome ambicioso e com coisas a dizer. Mas também, especialmente o novo filme, mostram que ainda conta com vícios de um jovem realizador. Vox Lux, por exemplo, conta com uma premissa intrigante, um elenco talentoso, um design de produção incrivelmente pensado, mas também é vazia em muitos sentidos.

O longa conta a história de ascensão de uma jovem estrela da música pop, desde o início da carreira impulsionado por uma tragédia ao auge dos problemas com a imprensa, o alcoolismo e o temperamento quente.

Estruturalmente, o filme conta com uma série de problemas. É dividido em capítulos e usa muito de saltos temporais. Com isso, acaba pulando partes da vida da cantora que são mais relevantes do que os vistos em cena. Assim, temos referências em falas sobre o que aconteceu com ela, mas acompanhamos a mesma em momentos mais ordinários.

O título, a trilha instrumental e a ótima narração de Willem Dafoe dão à obra um caráter quase religioso e impactante, mas o mesmo não se pode dizer do restante das cenas. Raffey Cassidy e Natalie Portman dividem o papel da protagonista Celeste na infância e na vida adulta. E também praticamente dividem o tempo em cena. Quem for esperando um filme só com Natalie Portman, vai se surpreender com a demora para aparecer na tela.

Jude LawJennifer Ehle e Stacy Martin completam o elenco da produção. Todos estão bem, mas sem um grande destaque. Acaba que quem chama mais a atenção é mesmo Portman, que ganha um grande número musical na parte final. Ela canta e dança muito, então deixa uma última boa impressão, mas também não é nada que já não tinha feito antes. Visualmente, acaba lembrando um pouco o trabalho em Cisne Negro, mas sem o mesmo impacto.

Produzido pela cantora Sia, que ajudou Portman na composição da personagem, Vox Lux é uma obra mais peculiar do que propriamente boa. Ainda assim, tem seus valores e nunca é tediosa.

Filme visto durante o Festival de Toronto, em setembro de 2018.

NEW YORK, NY – FEBRUARY 28: Natalie Portman and Rassey Cassidy on the set of ‘Vox Lux’ on February 28, 2018 in New York City. (Photo by Gotham/GC Images)

Vice (Oscar 2019 – Estação Net Barra Point)

Na juventude, Dick Cheney (Christian Bale) se aproximou do Partido Republicano ao ver na política uma grande oportunidade de ascender de vida. Para tanto, se aproxima de Donald Rumsfeld (Steve Carell) e logo se torna seu assessor direto. Com a renúncia do ex-presidente Richard Nixon, os poucos republicanos que não estavam associados ao governo ganham imediata importância e, com isso, tanto Cheney quanto Rumsfeld retornam à esfera de poder do partido. Décadas depois, com a decisão de George W. Bush (Sam Rockwell) em se lançar candidato à presidência, Cheney é cortejado para assumir o posto de vice-presidente. Ele aceita, mas com uma condição: que tenha amplos poderes dentro do governo, caso a chapa formada seja eleita.

 

É preciso olhar com atenção para Adam McKay. De longa carreira na comédia, ele se reinventou ao encampar uma proposta corajosa: destrinchar a complexa crise imobiliária que atingiu em cheio a economia norte-americana em 2007, no contundente e ótimo A Grande Aposta. Para driblar – ou amenizar – o didatismo, McKay brincou (e ousou) ao explorar um sem-número de citações à cultura pop, de forma a aproximar o espectador ao conteúdo retratado. Sempre em tom crítico e sarcástico, o que ainda trouxe dinamismo e ritmo à narrativa.

Três anos depois, McKay retorna com a mesma proposta ao cutucar um cenário ainda mais espinhoso: a política. Para tanto, personifica sua análise na figura do ex-vice-presidente Dick Cheney, o todo poderoso nas sombras no duplo governo de George W. Bush. Sem jamais esconder sua posição contrária ao “homenageado”, McKay – que também assina o roteiro – vai além do mero relato de vida ao propor uma análise sobre as entranhas do jogo político, por vezes cíclicas, e o quanto certos atos e posturas são intrínsecos não só aos Estados Unidos, mas a outros países – o Brasil especialmente, como fica escancarado na citação ao governo de Jimmy Carter.

É neste aspecto que Vice, em vários momentos, alcança a grandeza. Seja nas brincadeiras de linguagem ou mesmo nas análises macro, McKay demonstra uma necessária clareza aliada a um impressionante jogo de cintura em como contar esta história, de forma que seja ao mesmo tempo aprofundada e atraente às gerações contemporâneas, entediadas cada vez mais rápido. Em seu segundo filme sob as mesmas regras, não é exagero dizer que o diretor alça ao posto de criador, no sentido de estabelecer uma linguagem própria que permita o fácil reconhecimento de sua assinatura cinematográfica – algo para poucos, é bom ressaltar.

Ainda assim, apesar de momentos de puro brilhantismo – atenção à cena pós-créditos! -, McKay por vezes cai na armadilha do exagero, especialmente quando opta por ridicularizar seu personagem-símbolo. Se Dick Cheney é ardiloso, sempre atento às oportunidades que a vida traz, tal característica é muito bem retratada a partir do tom crítico da própria narrativa. Porém, especialmente na primeira metade, a ojeriza ao que Cheney significa é tamanha que o diretor/roteirista/criador tende ao retratá-lo a partir da vulgaridade ou mesmo do excesso. Se tal proposta por um lado até faz rir, por outro é perigosa por menosprezá-lo – o que fica bem claro mais adiante, com as consequências de seus atos como vice-presidente.

Na construção deste personagem das sombras tão emblemático, é importante também ressaltar o meticuloso trabalho de transformação executado pelo camaleão Christian Bale. Mais do que apenas engordar 20 quilos, o Bale que conhecemos desaparece na postura desleixada e no jeito de falar de Cheney, buscando o mínimo de expressividade – reflexo também de seu tom sempre seco. Tal característica traz ainda uma consequência: por mais que seja um esforço de mimetização impressionante, a postura de Cheney nega ao ator cenas de clímax, tão comuns em filmes indicados ao Oscar. É na desconstrução de sua persona e na coesão corporal deste homem calado que está o brilho maior desta interpretação.

Tal desempenho, por outro lado, não deve ser creditado ao restante do elenco. Por mais que Amy Adams tenha uma boa atuação em uma personagem de pouco destaque, está longe dos principais papéis de sua carreira – leia-se Sharp Objects e A Chegada. Já Sam Rockwell se resume a uma mera cópia visual de George W. Bush, se atendo aos cacoetes tão conhecidos do ex-presidente dos Estados Unidos, enquanto Steve Carell é uma mera caricatura dos trejeitos de Donald Rumsfeld. Em Vice, não cabe ao elenco o brilho maior do longa-metragem, mas sim à linguagem empregada por seu criador.

Incisivo e necessariamente crítico, Vice ainda aponta o dedo (e justifica) a valorização do escapismo como meio de suportar a complexidade de uma realidade cada vez mais pesada, tão comum nos dias atuais – nos Estados Unidos e também no Brasil. Neste breve retrato da recente política norte-americana, McKay apresenta assuntos densos em uma linguagem pop, de forma a torná-los acessíveis ao grande público sem jamais se ater de um posicionamento político próprio – inclusive, o filme faz piada de tal postura. Se possui um certo desnível de ritmo, e até mesmo um deslocado tom solene após a posse de Cheney como vice-presidente, tal irregularidade não ameniza a capacidade de McKay em, mais uma vez, construir uma narrativa própria a partir de um imenso manancial de tecnicidades, de forma a explicá-lo – e entreter – sem menosprezar a inteligência do espectador.

com Juliana Serpa, no UCI New York, sala 09 VIP, no filme “A Mula”

A Mula (UCI New York – sala 09 VIP)

Leo Sharp coleciona uma série de honras que vão desde de prêmios por seus trabalhos como paisagista e decorador até o reconhecimento por ter lutado contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, foi aos 90 anos que conquistou algo surpreendente: ele foi preso por portar o equivalente a três milhões de dólares em cocaína no seu carro, uma picape velha, no Michigan. Sharp era o líder do Sinaloa, um cartel de drogas no México e foi sentenciado à três anos de cadeia.

Logo após constatar o que já era óbvio, apesar de ter negado a crua verdade dos mais de 100 quilos de cocaína que dividem o porta-malas de sua picape com um carregamento de nozes-pecã quase que inconscientemente, Earl Stone (Clint Eastwood) toma ciência completa da profundidade de seu dilema quando encontra o seu primeiro impasse policial. E, para piorar, com direito a um cachorro treinado para farejar narcóticos e tudo, evidentemente. Mas como bom malandro e manipulador indivíduo que é, o floricultor transformado em mula de um cartel de drogas mexicano consegue se desvencilhar do imbróglio.

Porque se há algo que A Mula, mais novo drama de Eastwood, não consegue fazer, a despeito de sua competência técnica, é esconder que seu protagonista é, no fundo de seu íntimo, um sujeito de má índole. O que, de fato, não é um problema em si, pelo menos não para o cinema: a sétima arte é povoada por tipos de moral duvidosa, para dizer o mínimo. Assim, esse incômodo gerado não passa pelas ações ou pela ética de Stone, mas sim e tão somente no fato de que A Mula, através de um emaranhado de trepidantes e irregulares mudanças tonais a cada passo dado, tenta mesmo nos vender a bondade de seu protagonista.

A inevitável falha crítica da empreitada anuncia-se de pronto quando o roteiro, escrito por Nick Schenck (Gran Torino) com base na história real de Leo Sharp, um dos maiores traficantes de todos os tempos, intenta estabelecer um utópico paralelo entre as personas de James Stewart e de Eastwood. Ora, basta conhecer um mínimo da carreira da estrela de Um Corpo que Cai para enxergar a impossibilidade do projeto: o primeiro é o arquétipo do homem bom, que luta para reverter as crises que atravessa e surgir como um herói agridoce no fim; o outro é o Homem Sem Nome, pistoleiro de sangue frio.

Portanto, por mais que todos os personagens secundários que Earl encontra em seu caminho como transportador de cocaína se esforcem para nos convencer das semelhanças entre as essências dos dois astros, esta é uma tarefa fadada ao fracasso. Até porque, em termos de construção de personagem, recebemos muito pouco incentivo para acreditar, de forma maniqueísta, na bondade do protagonista de A Mula. Porque, no fim das contas, o floricultor é, sim, alguém que errou, que recorreu ao transporte de drogas para tentar recuperar sua casa e que, invariavelmente, contribuiu para a indústria do narcotráfico.

O roteiro, por sua vez, complexifica ainda mais a pretensão de redenção de seu protagonista quando o apresenta, para começo de conversa, como um péssimo pai e péssimo marido, como um homem que abandonou a família por causa do trabalho. Toda a subtrama que envolve os personagens das subaproveitadas Dianne Wiest e Taissa Farmiga, respectivamente ex-mulher e neta de Earl, é completamente dispensável, e não só não auxilia o arco narrativo do personagem, como também o prejudica. Entre perseguições policiais e dramas íntimos, a trama de A Mula fica abarrotada.

Eastwood, que jamais foi um realizador chegado às sutilezas, perde a mão por completo ao tentar criar uma transição entre um filme de estrada, um suspense criminal, um drama familiar e uma muito deslocada comédia. Ao não aceitar apenas um dos registros narrativos — ao não aceitar, em outras palavras, a natureza de thriller do projeto, escanteando as sólidas e cativantes performances dos agentes interpretados por Bradley Cooper e Michael Peña —, o realizador dá mostras de que os dias de Gran Torino, filme com mais afinidade temática com este A Mula, estão definitivamente no passado.

Este descompasso, aliás, só aprofunda a decepção causada por este híbrido, que arranca risadas nas horas erradas — as cenas em que Earl interrompe seu caminho para dar conselhos automobilísticos para uma família negra e para um grupo de motociclistas lésbicas são constrangedoras e preconceituosas, a despeito das “boas intenções” de ambas as sequências em tratar o personagem como um idoso tolerante. Porque Eastwood não perdeu o ritmo e a capacidade de conduzir um longa: apesar de todos os pesares, A Mula funciona e, de um ponto de vista puramente técnico, não comete nenhum erro.

A montagem e a fotografia tratam de conferir o visual e o andamento corretos para a produção, enquanto todo o elenco de apoio, completado por nomes como Andy Garcia e Laurence Fishburne, faz o possível para salvar a empreitada. E esta a questão: se não fossem os problemas éticos da obra — Eastwood não parece compreender, por exemplo, que Earl é um criminoso, independentemente de suas motivações, ao tentar transformá-lo em um herói —, o projeto não precisaria ser resgatado de si mesmo. Mas tudo que A Mula quer é nos fazer simpatizar com um vilão sem jamais observá-lo com o mínimo de senso crítico.

Todo bom antagonista que se preze deve encantar, em certa medida, a audiência: são os seus meios questionáveis que nos afastam e nos repelem, mas são suas intenções fundamentalmente genuínas e compreensíveis que nos atraem. No caso de Earl, por outro lado, essa ambiguidade não é construída: o roteiro conta que iremos simplesmente ter consideração e empatia pelo protagonista pelo fato do idoso ser uma vítima das circunstâncias — algo que ele, claramente, não é. Aliás, Eastwood, esse modelo de caubói vingador, precisaria se esforçar muito mais como ator para nos convencer de que é meramente indefeso.

Pontuado por uma obsessão inexplicável por celulares e diálogos expositivos e didáticos demais, A Mula soa como uma espécie de tentativa de seu astro e diretor de redimir os crimes de Blondie, o protagonista da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone. É como se Eastwood estivesse tentando provar que seus críticos estão errados e que suas ideias mudaram. Contudo, a visão de mundo do realizador parece permanecer intacta, ainda que mascarada, como a insana cena da festa no México comprova: no fim das contas, tudo está igual. Ele pode reconhecer que errou, mas não pode ser mais que um rascunho de James Stewart.

E tudo bem, porque Eastwood é Eastwood, a despeito das problemáticas declarações de sua vida pessoal: ele é um astro de Hollywood e não precisa tentar ser o que não é, especialmente por ser fundamentalmente o anti-James Stewart. Para exercer suas habilidades como cineasta ao máximo, o ator precisa de um roteiro minimamente sólido, e a história de Leo Sharp possuía todas as potencialidades para tal. Aqui, entretanto, o responsável por obras como Sobre Meninos e LobosOs Imperdoáveis e Menina de Ouro se perdeu por completo. A Mula é, provavelmente, um dos piores filmes de Eastwood.

Cinépolis Lagoon 3: “Entre Irmãs”

Minha Fama de Mau (Cinépolis Lagoon)

Lutando para sobreviver e se virando com pequenos trabalhos, o jovem Erasmo Carlos (Chay Suede) alimenta uma paixão: o rock and roll. Fã de Elvis Presley, Bill Halley & The Comets e Chuck Berry, ele aprende a tocar violão e passa a perseguir a ideia de viver da música. Misturando talento e um pouco de sorte, ele conquista a admiração do apresentador de TV Carlos Imperial (Bruno de Luca), um cara influente no meio artístico, e através dele conhece o cantor Roberto Carlos (Gabriel Leone), com quem começa a compor diversas canções. A parceria dá muito certo e o sucesso logo chega, transformando para sempre a vida de Erasmo.

Até que demorou. Em meio a tantos projetos envolvendo ícones da música popular brasileira, no cinema e no teatro, era de se estranhar que nada tenha surgido (até então) envolvendo a Jovem Guarda, movimento ícone dos anos 1960 que balançou corações e mentes dos jovens da época. Minha Fama de Mau vem suprir esta lacuna, tendo por base a vida de um dos principais nomes do movimento: Erasmo Carlos.

Dirigido por Lui Farias, o longa-metragem é hábil ao encampar a Jovem Guarda não apenas como fenômeno musical, mas também comportamental – especialmente ao ressaltar ser esta a principal característica do movimento. Não se trata de denegrir as canções e músicos, esforço empreendido por vários críticos da época, mas de contextualizar o momento do país de forma a melhor compreender sua explosão popular, tendo sempre por base a carreira do próprio Erasmo. Até por isso, Minha Fama de Mau foge do tema político, sequer lembrando o espectador de que os fatos narrados aconteceram em plena ditadura militar. Para este filme, tal informação não importa – o que deixa ainda aberta a lacuna acerca do filme definitivo sobre a Jovem Guarda, em toda sua abrangência.

A partir da efervescência musical da Tijuca, berço também de Tim Maia (Vinícius Alexandre, em boa composição do estilo inconfundível do cantor, mesmo na juventude), o filme acompanha a saga de Erasmo antes mesmo de aprender música de fato, quando era um mero fã do que vinha lá de fora – empolgado com o ritmo e visual alheios, ele busca o rock’n’roll style ao dedilhar suas primeiras notas e se arriscar no microfone. Tal jornada é apresentada a partir de um mix de estilos narrativos, que nem sempre dialogam bem entre si. Da quebra da quarta parede à presença de um narrador em off, Minha Fama de Mau passa ainda por mudanças de formato de tela, personagens desenhados a mão, sonhos, enquadramento no estilo quadrinhos, imagens de época e uma atriz que se desdobra em vários personagens, sempre em participações bem pequenas – e, muitas vezes, sem qualquer importância. Soma-se a isso um punhado de diálogos artificiais, que transmitem a ansiedade em rapidamente proporcionar ao espectador o reconhecimento dos personagens em cena.

Por mais estranha que seja, tal estrutura narrativa tem justificativa, dada pelo próprio filme. Em determinada cena, Roberto e Erasmo Carlos estão juntos em um ônibus, compondo a letra de “Parei na Contramão”. Um deles pergunta: “mas como você quer fazer uma música sobre carros que tenha um ritmo lento?” Lui Farias segue a mesma tática: ao rodar um filme sobre juventude, mesmo que de época, ele busca a novidade como formato narrativo, no sentido de dialogar esteticamente com sua matéria-prima. Por mais que até seja uma proposta interessante, a má execução de boa parte de tais tentativas traz ao filme um ar de estranhamento, em seu terço inicial. É apenas quando sossega nas experimentações, assumindo um ritmo mais tradicional, que o filme se encontra de fato. Não por acaso, é quando a Jovem Guarda inicia.

Em meio à histeria decorrente do sucesso, brilha o talento de Chay Suede e Gabriel Leone. Se o primeiro migra da luta por algum espaço para o posto de ídolo de uma geração, Leone é a personificação precisa do jeito de ser de Roberto Carlos – sem recorrer a caricaturas, como tantas vezes acontece. Malu Rodrigues completa o trio como Wanderléa, em uma atuação mais dedicada a replicar os trejeitos da cantora do que propriamente no desenvolvimento da personagem – demérito do roteiro, que foca apenas na proteção (e desejo) da dupla Roberto & Erasmo à caçula do grupo, sem dar a ela alguma profundidade. Esta, é sempre bom levar, é a história de Erasmo e, como tal, analisa apenas o que lhe interessa. Neste intuito, é claro que a amizade com Roberto Carlos ganha um bom espaço.

É interessante também reparar que, pela quantidade de filmes já feitos envolvendo ícones da MPB, certas lacunas presentes em Minha Fama de Mau são preenchidas por outras produções. Por exemplo, a ausência de Tim Maia da Jovem Guarda, mesmo integrando o mesmo grupo, está na cinebiografia do eterno síndico. A importância de Carlos Imperial, e seu jeito impositivo e muitas vezes destrutivo, vai além da caricatura aqui apresentada por Bruno de Luca e é (bem) melhor esmiuçada no documentário Eu Sou Carlos Imperial. Mesmo Elis Regina, aqui apenas mencionada, tem sua ojeriza às guitarras apresentada em Elis. É a história dos ídolos da música nacional formando, indiretamente, um imenso painel multifacetado sobre uma época tão rica e também complexa.

No fim das contas, Lui Farias entrega um filme correto, que tenta agradar aos fãs na representação dos bastidores da Jovem Guarda e, ao mesmo tempo, capturar a atenção dos mais jovens pela proposta narrativa empregada, apesar dos claros problemas de unidade. Seu ponto forte é o elenco, bem escolhido e caracterizado, que muitas vezes supera as fragilidades de roteiro e mesmo estruturais, quando claramente percebe-se que havia um orçamento limitado ao rodar certas cenas – especialmente as na saída da rádio onde Carlos Imperial trabalhava.

Retrato sonoro e comportamental de uma época, Minha Fama de Mau atende ao objetivo de trazer às telonas a história de vida de Erasmo Carlos – mesmo que, para tanto, tenha que desviar o foco de certos ângulos interessantes, e até mesmo necessários à história do movimento. Como curiosidade, vale prestar atenção na breve participação da cantora Paula Toller, como a icônica Candinha. Um pequeno mimo a quem viveu a época.

 

Green Book (UCI New York Center – Sala 08 Vip)

1962. Tony Lip (Viggo Mortensen), um dos maiores fanfarrões de Nova York, precisa de trabalho após sua discoteca, o Copacabana, fechar as portas. Ele conhece um um pianista e quer que Lip faça uma turnê com ele. Enquanto os dois se chocam no início, um vínculo finalmente cresce à medida que eles viajam.

Lançado em 1989, Conduzindo Miss Daisy recebeu o Oscar de Melhor Filme e se tornou um feel good movie para muita gente. Carregado por grandes atuações, tinha a premissa simples sobre uma senhora branca conservadora que era obrigada a se adaptar com um motorista negro. O filme gerava discussões sobre racismo e desigualdade, mas o fazia ainda diante de uma relação de trabalho “tradicional”, em que o negro é a pessoa hierarquicamente subordinada.Agora, quase trinta anos depois, Green Book chega com premissa parecida, mas com dinâmica pessoal e profissional invertida, em que um negro contrata um sujeito branco e racista para trabalhar como seu motorista e assistente. A troca de papéis parece pequeno detalhe, mas é fundamental para criar uma obra ainda mais complexa.Tony Lip (Viggo Mortensen) é o tradicional brucutu ítalo-americano que leva a vida com pequenos serviços. Em um deles, trabalha…

A Esposa

Joan Castleman (Glenn Close) é casada com um homem controlador e que não sabe como cuidar de si mesmo ou de outra pessoa. Ele é um escritor e está prestes a receber um Prêmio Nobel de literatura. Joan, que passou 40 anos ignorando seus talentos literários para valorizar a carreira do marido, decide abandoná-lo.

Pode demorar um pouco para o espectador perceber o que faz de Joan (Glenn Close) a personagem principal deste filme. Afinal, tudo parece girar em torno do marido, o prestigioso escritor Joe Castleman (Jonathan Pryce): é ele que acaba de ganhar um Nobel de Literatura, é ele que recebe os elogios e congratulações. À esposa, cabe acompanhá-lo como uma sombra, cumprimentando elegantemente os outros homens nas festas e reuniões. Mesmo assim, a imagem insiste em se focar no rosto dela enquanto o marido discursa. Quando ele descobre a notícia do prêmio, é a face dela que presenciamos, escutando a novidade pela extensão do telefone. A trama prefere se concentrar nos coadjuvantes, nas figuras de exceção.

 

A primeira metade é dedicada à dinâmica do casal, junto do filho David (Max Irons), aspirante a escritor. Esta parte, a mais potente do filme, efetua uma ótima investigação psicológica, mergulhando no caldeirão de ciúme, inveja, arrogância e falsas aparências que marca o pequeno núcleo de intelectuais. Os bons diálogos dão conta de mostrar como o caráter prestativo da esposa se transforma em submissão, como os agradecimentos pomposos do marido à sua “musa” soam pedantes e, como a admiração do filho pelo pai esconde uma raiva de ser comparado a ele. Essas pessoas se amam e se odeiam em igual medida, algo transmitido através constrangimentos em público e desconforto diante das regras sociais e códigos de etiqueta.

 

 

Os atores auxiliam muito nesse processo. Glenn Close, conhecida por tantos papéis extrovertidos e furiosos, oferece uma atuação contida, mas jamais vazia: cada expressão silenciosa ao lado do marido carrega uma infinidade de sentimentos, que se transformam ao longo da trama. A variação que Close traz à personagem garante a força necessária à sustentação da narrativa. Jonathan Pryce, igualmente habilidoso, evita transformar seu personagem em vilão, navegando entre a ternura e a grandiloquência com desenvoltura. Apenas Max Irons, mais fraco que os colegas de cena, encontra dificuldades em criar um arco dramático para o emburrado David. Mesmo rumo ao final, quando o filho descobre informações importantes sobre os pais, o jovem ator não trabalha a contento o choque emocional.

 

Apesar de ser um estudo sofisticado sobre os meios intelectuais, dissecando o papel das mulheres num ambiente machista, A Esposa é prejudicado por algumas escolhas de roteiro e direção. Primeiro, a adaptação do livro “The Wife”, de Meg Wolitzer, oculta durante muito tempo um segredo previsível. Na hora de enfim revelá-lo, o impacto esperado não se produz devido à obviedade do conflito, que termina por transformar o belo drama num suspense de soluções fáceis, vistas inúmeras vezes em outros exemplares do gênero. Além disso, o retrato da opressão é construído através de flashbacks burocráticos, que ilustram o machismo sem necessariamente criticá-lo. Mesmo ao fim, quando a verdade vem à tona, é surpreendente o modo como a narrativa impede a emancipação da personagem oprimida.

 

 

Além disso, o diretor Björn Runge demonstra uma cartilha limitada de recursos cinematográficos. A câmera se limita a acompanhar personagens, filmando rostos ou corpos de acordo com a necessidade de cada cena. É obviamente tentador colar a câmera ao rosto de atores talentosos como Glenn Close e Jonathan Pryce, mas isso impede qualquer construção poética, metafórica, qualquer investigação visual – como fez François Ozon em O Amante Duplo, outra investigação psicológica, de fundo erótico, sobre as relações de dominação entre homens e mulheres. Os planos focados no rosto da esposa calada são eficazes, porém insuficientes para imprimir maior relevo às imagens, que se sucedem numa superficialidade inabalável.

 

O espaço dos hotéis, a viagem a uma cidade desconhecida e o contato com a língua estrangeira pareciam o contexto perfeito para reforçar o desconforto de Joan e David. No entanto, estes elementos permanecem na condição de cenários, planos de fundo jamais explorados pela direção, que filma os quartos e palácios como meros estúdios de cinema. Mesmo assim, com todas as ressalvas – que incluiriam mais uma relação predatória, envolvendo o personagem de Christian Slater, da qual Joan precisa se esquivar – o saldo de A Esposa é positivo por encarar de modo frontal a questão da masculinidade e da perenidade dos relacionamentos na terceira idade, permitindo à dupla de protagonistas demonstrar todo o seu leque de recursos dramáticos.

 

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Estação Net Gávea – Shopping da Gávea – “Mary Poppins Returns”

Mary Poppins Returns – 2018 – Estação Net Gávea 5

Numa Londres abalada pela Grande Depressão, Mary Poppins (Emily Blunt) desce dos céus novamente com seu fiel amigo Jack (Lin-Manuel Miranda) para ajudar Michael (Ben Whishaw) e Jane Banks (Emily Mortimer), agora adultos trabalhadores, que sofreram uma perda pessoal. As crianças Annabel (Pixie Davies), Georgie (Joel Dawson) e John (Nathanael Saleh) vivem com os pais na mesma casa de 24 anos atrás e precisam da babá enigmática e o acendedor de lampiões otimista para trazer alegria e magia de volta para suas vidas.

Emily Blunt is Mary Poppins, Joel Dawson is Georgie, Pixie Davies is Annabel and Nathanael Saleh is John in Disney’s MARY POPPINS RETURNS, a sequel to the 1964 MARY POPPINS, which takes audiences on an entirely new adventure with the practically perfect nanny and the Banks family.

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