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Minha Fama de Mau (Cinépolis Lagoon)

Minha Fama de Mau (Cinépolis Lagoon)

Lutando para sobreviver e se virando com pequenos trabalhos, o jovem Erasmo Carlos (Chay Suede) alimenta uma paixão: o rock and roll. Fã de Elvis Presley, Bill Halley & The Comets e Chuck Berry, ele aprende a tocar violão e passa a perseguir a ideia de viver da música. Misturando talento e um pouco de sorte, ele conquista a admiração do apresentador de TV Carlos Imperial (Bruno de Luca), um cara influente no meio artístico, e através dele conhece o cantor Roberto Carlos (Gabriel Leone), com quem começa a compor diversas canções. A parceria dá muito certo e o sucesso logo chega, transformando para sempre a vida de Erasmo.

Até que demorou. Em meio a tantos projetos envolvendo ícones da música popular brasileira, no cinema e no teatro, era de se estranhar que nada tenha surgido (até então) envolvendo a Jovem Guarda, movimento ícone dos anos 1960 que balançou corações e mentes dos jovens da época. Minha Fama de Mau vem suprir esta lacuna, tendo por base a vida de um dos principais nomes do movimento: Erasmo Carlos.

Dirigido por Lui Farias, o longa-metragem é hábil ao encampar a Jovem Guarda não apenas como fenômeno musical, mas também comportamental – especialmente ao ressaltar ser esta a principal característica do movimento. Não se trata de denegrir as canções e músicos, esforço empreendido por vários críticos da época, mas de contextualizar o momento do país de forma a melhor compreender sua explosão popular, tendo sempre por base a carreira do próprio Erasmo. Até por isso, Minha Fama de Mau foge do tema político, sequer lembrando o espectador de que os fatos narrados aconteceram em plena ditadura militar. Para este filme, tal informação não importa – o que deixa ainda aberta a lacuna acerca do filme definitivo sobre a Jovem Guarda, em toda sua abrangência.

A partir da efervescência musical da Tijuca, berço também de Tim Maia (Vinícius Alexandre, em boa composição do estilo inconfundível do cantor, mesmo na juventude), o filme acompanha a saga de Erasmo antes mesmo de aprender música de fato, quando era um mero fã do que vinha lá de fora – empolgado com o ritmo e visual alheios, ele busca o rock’n’roll style ao dedilhar suas primeiras notas e se arriscar no microfone. Tal jornada é apresentada a partir de um mix de estilos narrativos, que nem sempre dialogam bem entre si. Da quebra da quarta parede à presença de um narrador em off, Minha Fama de Mau passa ainda por mudanças de formato de tela, personagens desenhados a mão, sonhos, enquadramento no estilo quadrinhos, imagens de época e uma atriz que se desdobra em vários personagens, sempre em participações bem pequenas – e, muitas vezes, sem qualquer importância. Soma-se a isso um punhado de diálogos artificiais, que transmitem a ansiedade em rapidamente proporcionar ao espectador o reconhecimento dos personagens em cena.

Por mais estranha que seja, tal estrutura narrativa tem justificativa, dada pelo próprio filme. Em determinada cena, Roberto e Erasmo Carlos estão juntos em um ônibus, compondo a letra de “Parei na Contramão”. Um deles pergunta: “mas como você quer fazer uma música sobre carros que tenha um ritmo lento?” Lui Farias segue a mesma tática: ao rodar um filme sobre juventude, mesmo que de época, ele busca a novidade como formato narrativo, no sentido de dialogar esteticamente com sua matéria-prima. Por mais que até seja uma proposta interessante, a má execução de boa parte de tais tentativas traz ao filme um ar de estranhamento, em seu terço inicial. É apenas quando sossega nas experimentações, assumindo um ritmo mais tradicional, que o filme se encontra de fato. Não por acaso, é quando a Jovem Guarda inicia.

Em meio à histeria decorrente do sucesso, brilha o talento de Chay Suede e Gabriel Leone. Se o primeiro migra da luta por algum espaço para o posto de ídolo de uma geração, Leone é a personificação precisa do jeito de ser de Roberto Carlos – sem recorrer a caricaturas, como tantas vezes acontece. Malu Rodrigues completa o trio como Wanderléa, em uma atuação mais dedicada a replicar os trejeitos da cantora do que propriamente no desenvolvimento da personagem – demérito do roteiro, que foca apenas na proteção (e desejo) da dupla Roberto & Erasmo à caçula do grupo, sem dar a ela alguma profundidade. Esta, é sempre bom levar, é a história de Erasmo e, como tal, analisa apenas o que lhe interessa. Neste intuito, é claro que a amizade com Roberto Carlos ganha um bom espaço.

É interessante também reparar que, pela quantidade de filmes já feitos envolvendo ícones da MPB, certas lacunas presentes em Minha Fama de Mau são preenchidas por outras produções. Por exemplo, a ausência de Tim Maia da Jovem Guarda, mesmo integrando o mesmo grupo, está na cinebiografia do eterno síndico. A importância de Carlos Imperial, e seu jeito impositivo e muitas vezes destrutivo, vai além da caricatura aqui apresentada por Bruno de Luca e é (bem) melhor esmiuçada no documentário Eu Sou Carlos Imperial. Mesmo Elis Regina, aqui apenas mencionada, tem sua ojeriza às guitarras apresentada em Elis. É a história dos ídolos da música nacional formando, indiretamente, um imenso painel multifacetado sobre uma época tão rica e também complexa.

No fim das contas, Lui Farias entrega um filme correto, que tenta agradar aos fãs na representação dos bastidores da Jovem Guarda e, ao mesmo tempo, capturar a atenção dos mais jovens pela proposta narrativa empregada, apesar dos claros problemas de unidade. Seu ponto forte é o elenco, bem escolhido e caracterizado, que muitas vezes supera as fragilidades de roteiro e mesmo estruturais, quando claramente percebe-se que havia um orçamento limitado ao rodar certas cenas – especialmente as na saída da rádio onde Carlos Imperial trabalhava.

Retrato sonoro e comportamental de uma época, Minha Fama de Mau atende ao objetivo de trazer às telonas a história de vida de Erasmo Carlos – mesmo que, para tanto, tenha que desviar o foco de certos ângulos interessantes, e até mesmo necessários à história do movimento. Como curiosidade, vale prestar atenção na breve participação da cantora Paula Toller, como a icônica Candinha. Um pequeno mimo a quem viveu a época.

 

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