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Filmes

O Fotógrafo de Mauthausen (Netflix)

Francesc Boix (Mario Casas) é um ex-soldado que lutou na Guerra Civil da Espanha preso no campo de concentração de Mauthausen durante a Segunda Guerra Mundial. Tentando sobreviver, ele se torna o fotógrafo do diretor do campo. Quando ele descobre que o Terceiro Reich perdeu para o exército soviético na batalha de Stalingrado, Boix torna sua missão salvar os registros dos horrores realizados no local.

GRAF4847. TERRASSA (BARCELONA), 23/11/2017.- El actor Mario Casas posa durante un receso del rodaje de la nueva película de Mar Targarona “El fotógrafo de Mauthausen”, en la que Casas se pone en la piel de Francesc Boix, un preso español en un campo de concentración nazi, “un auténtico héroe”, han coincidido en señalar hoy la cineasta y el intérprete. EFE/Alejandro García

O Menino Que Descobriu o Vento (Netflix)

Sempre esforçando-se para adquirir conhecimentos cada vez mais diversificados, um jovem de Malawi se cansa de assistir todos os colegas de seu vilarejo passando por dificuldades e começa a desenvolver uma inovadora turbina de vento.

Existe algo fundamentalmente contraditório no costume de identificar casos excepcionais dentro da sociedade e utilizá-los como modelos que qualquer um poderia seguir. William Kamkwamba (Maxwell Simba) foi um garoto inteligentíssimo, autodidata, que descobriu um método de criar energia eólica no meio das terras secas do Malawi, de modo a garantir a irrigação das colheitas e a sobrevivência de uma população faminta. O diretor Chiwetel Ejiofor faz deste caso real um exemplo sobre a importância dos estudos, da ecologia, de políticas humanitárias e do senso de comunidade.

Em outras palavras, o garoto é instrumentalizado para caber dentro do formato narrativo e moral de uma fábula. Ele jamais representa a si mesmo, e sim algo muito maior: a importância das escolas, da união, da luta contra as opressões, do respeito ao próximo etc. Por esta razão, a história se transforma num grande tratado de valores morais que o diretor acredita serem necessários a todas as pessoas. “Nós temos que garantir que as pessoas saibam o que está acontecendo aqui”, afirma a certa altura Trywell Kamkwamba (Ejiofor), claro alter-ego do cineasta. O artista também acredita na necessidade da informação, tratando de explicar, aos olhos europeus e americanos, as consequências da miséria e da corrupção nos países africanos.

The Boy Who Harnessed the Wind funciona igualmente como cautionary tale, ou seja, uma fábula de precaução para avisar ao espectador o que acontecerá caso não coloquemos em prática os valores enunciados acima. Os símbolos são claros: o céu preto indica a chegada da chuva, mas também a tragédia na vida da família; enquanto o sol é apresentado numa fusão com os olhos do garoto, afinal, ele representa a esperança para o futuro. Não por acaso, “Vá para a escola” é uma das últimas frases pronunciadas no filme, enquanto uma prece religiosa é interrompida pela garota que prefere acreditar nos conhecimentos científicos do irmão do que esperar pelo atendimento divino.

 

Isso não impede que o drama carregue o olhar salvacionista que tanto incomoda em produções sobre catástrofes africanas. Assim como Hotel Ruanda e Rainha de Katwe, temos uma narrativa que observa os personagens com carinho misturado a paternalismo. A descoberta do método de irrigação é mérito do garoto, mas os letreiros finais tratam de avisar que ele saiu do país e foi completar a sua educação nos Estados Unidos, como pareceria lógico ao pensamento europeu/americano. Mesmo assim, o resultado é uma produção polida, com fotografia bem adequada à iluminação das peles negras – elemento ainda em falta na maioria dos blockbusters-, bom trabalho de direção de arte e preparação muito satisfatória do elenco.

 

Ejiofor ainda encontra espaço para destacar o folclore, as diferentes línguas do país e os costumes típicos, enquanto retrata a si mesmo como a geração bondosa, porém tolhida pela dificuldade de acesso à informação. Este é claramente um filme político, ainda que a política seja compreendida menos como um conjunto de práticas sociais – a subtrama do governador corrupto fica em segundo plano – do que uma medida de esforço individual. Ainda se acredita que, mediante o esforço necessário, qualquer um possa se tornar um engenheiro promissor como o personagem principal. Ingênuo ou não, este raciocínio é apresentado com uma paixão e uma honestidade inegáveis: o diretor impregna cada cena de humanismo e empatia, além de ressaltar a importância das mulheres dentro das transformações sociais.

The Boy Who Harnessed the Wind e tantas outras produções semelhantes podem ajudar a pensar sobre o cinema como veículo de ensinamento. A questão é menos óbvia do que parece: a arte tem como vocação ensinar as pessoas? Transmitir valores, ensinamentos? A arte pode ser um objeto utilitário? Ou sua função estaria no despertar de sentidos, sentimentos, capazes de facilitar/induzir o aprendizado? Ejiofor acredita numa transmissão direta, simples, com seu interlocutor: ele lhe diz, com clareza, o que está acontecendo no Malawi, o que faltaria ao país e como consegui-lo.

 

Em outras palavras, oferece o problema e a solução, como um professor generoso. Ao espectador não cabe fazer muito esforço: o filme o envolve, o faz rir e chorar, entregando as informações e a recompensa prometida. No entanto, manter o espectador em posição de passividade pode ser uma estratégia contraprodutiva quando se espera um aprendizado, algo que exige, por definição, uma postura ativa. É possível que o projeto, com suas belas imagens e boas intenções, funcione melhor como veículo de sensibilização do que de reflexão.

 

Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

The Boy Who Harnessed the Wind

Não Devore Meu Coração (Now)

Joca (Eduardo Macedo), um jovem de treze anos, descobre o amor quando conhece Basano (Adeli Benitez), uma menina paraguaia. No entanto, para conquistá-la, Joca passará por grandes dificuldades relativas a problemas na fronteira entre o Brasil e o Paraguai e seu irmão Fernando (Cauã Reymond), que pertence a uma perigosa gangue de motociclistas.

Os letreiros iniciais deste filme informam, em linhas gerais, as circunstâncias que motivaram a Guerra do Paraguai e a contagem oficial de mortos no genocídio. Citam também a atual rivalidade na fronteira entre o Paraguai e o Brasil como consequência deste período. Logo após, os letreiros informam que, neste contexto, “um garoto se apaixona por uma garota”. Passamos, no espaço de uma frase, dos fatos à lenda, da trajetória de uma nação à trajetória dos indivíduos.

 

Não Devore Meu Coração - FotoNão Devore Meu Coração costura estes elementos, colocando a realidade entre parênteses: ao adotar o ponto de vista do garoto Joca (Eduardo Macedo), o mundo torna-se desproporcional, absurdo. É difícil separar boatos de fatos aos treze anos de idade, por isso o roteiro mantém uma percepção imprecisa das circunstâncias ao longo de toda a narrativa. Joca não sabe se enxerga o irmão mais velho, Fernando (Cauã Reymond), como um protetor ou o perigoso membro de uma gangue de motoqueiros, não sabe se acredita no poder místico da garota paraguaia Basano (Adeli Gonzales) ou se tem condições de enfrentá-la.

 

O amor é mesclado com o ódio nesta espécie de mito fundador do folclore regional. Joca adora e detesta o irmão, adora e detesta Basano. As guerras perdem o impacto imediato devido a esta estrutura: os grupos rivais de motoqueiros competem “apenas por prazer”, segundo Fernando, mas os cadáveres boiam todos os dias no rio, e fala-se muito pouco a respeito. Aborda-se um confronto tacitamente consentido, em que os verdadeiros agentes de conflito estão nos bastidores, enquanto a população torna-se cúmplice.

 

Talvez por isso quase todos os personagens ganhem codinomes e personalidades alternativas: o irmão mais novo é chamado de Bruce Wayne, enquanto o mais velho é Clark Kent. O líder da gangue é Telecath, a garota paraguaia é “a tatuada”, a garota-crocodilo, uma figura selvagem que o brasileiro deseja apreender e domesticar. É curiosa a metáfora do amor como pacificador de conflitos entre duas nações, como nos séculos anteriores em que a realeza de países opostos casava seus filhos para evitar invasões. Aqui, embora haja amor da parte de Joca, a união não é consensual: Basano recusa os avanços do brasileiro. Ela representa a resistência histórica diante dos brancos.

 

Não Devore Meu Coração - FotoDurante uma parte considerável da narrativa, percebe-se a dificuldade em trabalhar o impacto mútuo das duas histórias paralelas. Os conflitos de Joca e de Fernando correm sem necessariamente se cruzar. Os raros pontos de intersecção correspondem aos momentos mais fortes do filme: as cenas familiares, com o pai postiço e o filho improvisado, evidenciam o bom trabalho de direção de elenco e o crescimento espantoso de Cauã Reymond como ator a cada novo filme. Ao mesmo tempo, algumas cenas podem parecer deslocadas, exageradas, mal explicadas – como nas lendas, aliás, nas quais os símbolos valem menos por sua função narrativa do que pela multiplicidade de significados oferecidos ao interlocutor.

 

O diretor e roteirista Felipe Bragança constrói essa história com efeitos lúdicos discretos, a exemplo da noite repleta de vaga-lumes, com direito a cenas noturnas que revelam a pixelização, o aspecto meio cru da captação digital. As belezas de Não Devore Meu Coraçãovão muito além do imaginário de fuga representado pelas fronteiras entre países. O filme abre-se à possibilidade do sonho, da releitura histórica pela metáfora do amor impossível. Não existe reconciliação entre Brasil e Paraguai nesta trajetória de perdedores. O próprio título, aliás, indica o domínio paraguaio nesta vingança simbólica: sempre foi Basano, a paraguaia selvagem, que teve controle do frágil brasileiro apaixonado.

 

Filme visto no 67º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017.

Cinépolis Lagoon 3: “Entre Irmãs”

Rasga Coração (Now)

Manguari Pistolão (Marco Ricca) é ao mesmo tempo um herói e um homem comum. Atuante na militância em boa parte da vida, agora ele terá que enfrentar o mesmo que seu pai enfrentou: o seu filho Luca (Chay Suede) pretende deixar a faculdade de Medicina e ingressar de vez no movimento hippie. Em um crescente conflito com as escolhas do filho, ele verá seu passado sendo reiventado na figura dele.

Existe algo curioso na psicologia das lutas sociais: muito mais difícil do que compreender porque as pessoas se revoltam contra o sistema, é entender porque param de se revoltar. Se a história guarda as trajetórias de militantismo com orgulho ou desdém – dependendo do lado do espectro político em que você se encontre –, pouco se diz sobre o esfacelamento dos movimentos, a dissolução dos grupos e a adesão, ainda que parcial, ao sistema criticado como forma de sobrevivência. Muitos jovens devem ter estudado como começou, e como se desenvolveu, o maio de 1968 na França. Mas de que modo ele terminou? Acima de tudo, que impacto aquele instante produziu nas gerações posteriores?

 

Rasga Coração busca compreender, com generosa dose de afeto, a herança da resistência contra a ditadura militar no Brasil de hoje. O símbolo principal destas gerações é Manguari Pistolão (Marco Ricca), pai de família que praticava, em sua juventude, a resistência contra os militares. “É por causa de política que ele não subiu na vida”, lembra a mãe conformista que, no entanto, ama o marido e compreende sua verve questionadora. Em seu tempo, o jovem Manguari (interpretado por João Pedro Zappa) lutava nas ruas, enfrentava a tortura dos militares, rejeitava o patriotismo belicoso. Décadas mais tarde, ele trabalha todos os dias na mesma repartição, distante de disputas políticas, até perceber o filho adolescente (Chay Suede) aderindo a novas formas de protesto.

 

 

O roteiro é rico em discussões sobre as mais diversas formas e razões de lutar, entre os séculos XX e XXI. Hoje o filho é vegano, buscando um tipo de revolução do corpo que o pai não entende. Na sua época, os combates eram coletivos, nas ruas, com panfletos, ações sociais, gritos de ordem. Tempos depois, os jovens querem lutar pelo direito de homens usarem saias, mulheres disporem de seus corpos como bem entenderem. O mérito do texto é perceber que estes combates são idênticos em sua essência (por apoiarem a liberdade do indivíduo, a distribuição de renda e o combate às opressões), mas distintos em suas características culturais e formas de atuação.

 

“Nossa dor é perceber / Que apesar de termos feito tudo o que fizemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos como nossos pais”, cantava Elis Regina, numa canção que descreveria perfeitamente o misto de orgulho e decepção que contamina os atores contemporâneos das lutas de ontem. Ou ainda: “As coisas podem parecer novas para você, mas o mundo é cheio de velhos problemas”, como explica o pai ao filho. Esta comparação entre gerações é feita de modo clássico pela montagem, que alterna imagens do presente e do passado, comparando com humor e leveza as lutas de Manguari e aquelas do filho Luca. O mundo mudou, mudou e continuou igual. Como não perder a coragem depois de tanto tempo e tanto sangue investido na causa?

 

É muito belo, e um tanto ingênuo, perceber o pai reganhando forças de lutar devido ao filho, mesmo que não se adeque aos novos tempos. Rasga Coração é um filme impregnado de nostalgia, uma espécie de tom crepuscular visto na câmera que passeia pela fachada dos prédios anônimos, nos preços das compras no supermercado, no cadáver abandonado ao meio-fio, que ninguém vem buscar. Furtado, que sempre soube equilibrar drama, comédia e crítica social como ninguém, retorna à melhor forma ao dirigir Marco Ricca, comovente em seus pequenos gestos e olhares no parapeito da janela, Drica Moraes, sempre tão talentosa com diálogos, capaz de passar da raiva à comédia em segundos, e Chay Suede, uma presença indispensável do novo cinema brasileiro, de estilo despojado e natural.

 

 

A interação entre eles é tão realista quanto verossímil, em decorrência dos excelentes diálogos e da coreografia discreta da câmera no apartamento, invisível em sua transição de corpo a corpo, de rosto a rosto. O cineasta nunca foi vaidoso, jamais buscou grandes estripulias de câmera, e sua precisão se torna ainda mais afiada e contida neste caso. As cenas do passado, igualmente, transbordam carinho e vigor juvenil, ainda que o histrionismo de Bundinha (George Sauma), por mais divertido e bem atuado que seja, soe cansativo pela ausência de variações. Mas Zappa e os demais atores deste núcleo se saem muitíssimo bem na crônica dos prazeres e excessos da juventude.

 

Rasga Coração se encerra com uma cena comovente, espécie de constatação que as lutas são feitas de concessões e rupturas. É preciso destruir um sistema para construir outro no lugar, diriam os revolucionários do século XX. Após tantas discussões políticas e ideológicas, o filho enfim se sente pronto para olhar o futuro e seguir em frente. Enquanto isso, o pai enfim encara os traumas do passado e relembra tanto o furor da juventude quando o cansaço que o levaram à vida de comodidades. Ninguém está certo, nem errado em seu modo de agir. Na calçada em frente ao imóvel, a mancha de sangue do cadáver abandonado relembra as marcas que não se apagam mais.

 

Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.

Em uma das primeiras cenas de Rasga Coração, adaptação da peça homônima de Oduvaldo Vianna Filho, Custódio (Marco Ricca) e Nena (Drica Moraes) discutem as despesas deixadas por seu filho Luca (Chay Suede), que seria o pesadelo encarnado de alguns pais: ativista, vegano e completamente rebelde. O pai, que era ativista quando jovem e agora ocupa um cargo burocrático no trabalho, abre mão de investimentos básicos para sustentar os gostos particulares do filho, e faz isso de bom grado – mas até quando?

Essa tensão percorre todo o filme, dirigido por Jorge Furtado (Saneamento Básico: O Filme). Em paralelo ao dia a dia atual de Custódio como pai, acompanhamos cenas de sua carregada juventude militante, apelidado como Manguari Pistolão (João Pedro Zappa). No caso de quem não conhece o material original – que nem esse cara aqui -, só passamos a saber disso um pouco mais à frente, numa decisão simples mas muito inteligente do roteiro, assinado por Furtado, Ana Luiza Azevedo e Vicente Moreno, que transpõe a trama original escrita na década de 70 para os dias atuais.

Contando com a montagem dinâmica de Giba Assis Brasil para tecer comparações diretas entre gerações, a adaptação de Furtado ganha grande peso emocional e satírico por ser tão próxima às realidades de muitas famílias de classe média, especialmente aquelas cujos integrantes mais jovens podem ser descritos mais precisamente como “de humanas”. Contudo, por mais que existam fortes elementos de sátira inseridos no texto e até mesmo na execução visual do longa, Rasga Coração nunca recorre a caricaturas e nem debocha de seus personagens.

Cada personagem pode de fato possuir uma personalidade muito marcada, alguns até sendo completos estereótipos, mas neles há sempre uma dimensão adicional prestes a se revelar. Mesmo o pai de Custódio, jocosamente apelidado de 666 (Nélson Diniz) e inicialmente contrastado como um sujeito muito mais ríspido que o filho em suas funções paternas, mostra uma compreensão inesperada a certo ponto, como se reconhecesse sua rispidez como uma obrigação sem sentido. Neste caso, a tipificação das personagens ajuda também a universalizar os sentidos do enredo com mais eficiência.

Por mais que o foco seja na figura de Custódio, que rumina sobre seu próprio passado e passa por uma desconstrução, pode-se dizer que novas camadas de Luca ficam aparentes no processo. Ambos “fogem do poder” em suas respectivas juventudes, desacreditados com o sistema que impera, mas não poderiam estar mais distantes pelos diferentes contextos vividos. Embora a obra nunca desmereça o ativismo de Luca, nota-se que, do pai ao filho, essa rebeldia perde significado, tornando-se muito mais uma atitude simbólica ou mesmo recreativa.

Na justaposição entre passado e presente, percebe-se uma diferença gritante entre os ativismos de ontem e hoje. Enquanto Custódio põe a cara a tapa em plena ditadura militar, sofrendo duras consequências por seus atos, Luca e seus amigos militantes depredam sua escola particular quase como uma recreação, um rolê. O longa também faz provocações oportunas sobre a falta de alteridade no ativismo jovem de classe média, que por vezes exclui outras vozes e deixa de rever estratégias. Por isso, a figura de Talita (Cinândrea Guterrez), uma jovem negra e filha de um antigo camarada de Custódio, denota a falta de interseccionalismo na causa dos colegas quando desvalorizam sua fala – e uma profunda ignorância deles quanto às heranças da garota.

Assim, quando o roteiro passa a situar Talita a Luca no mesmo espaço, fica cada vez mais perceptível que o problema do rapaz não é a rebeldia, mas sua falta de perspectiva individual. Enquanto ele despreza a ideia de ir à faculdade ou prestar vestibulares, a garota vê tais oportunidades como um sonho – ainda assim, o desejo dela de se adequar ao sistema não faz dela menos militante e nem anula suas heranças culturais e políticas. Apesar do engajamento político, Luca tem o privilégio do tempo, do conforto, e parece driblar obrigações para que isso continue assim.

Dessa maneira, vai se revelando um estudo de Luca como um jovem que adia a chegada da vida adulta, vendo sua postura ativista mais como o próprio objetivo do que um caminho para seu futuro. Por isso, é de uma grande beleza ver que o pai, inicialmente a figura acomodada e careta, reencontre suas formas de expressão e seja aquele a tirar o filho da acomodação. Em uma sequência que praticamente cola duas discussões familiares, Custódio muda sua atitude e expõe seus pontos de vista num diálogo estarrecedor, revelando-se um sujeito muito mais observador do que seu filho acreditava.

Porém, mesmo com sua densidade temática e tudo mais, o filme de Furtado consegue ser muito mais bem-humorado do que se espera. O diretor acerta o timing das situações com seus atores, que, diga-se de passagem, estão excelentes. Ricca, Moraes e Suede formam uma tríade poderosa em cena, cada um dominando bem seu papel. Enquanto isso, em flashbacks, Zappa faz um bom trabalho como o jovem Custódio, e George Sauma traz uma camada de angústia ao escandaloso Lorde Bundinha – suas cenas, no entanto, são as mais teatrais em registro, e acabam destoando das demais.

Ambientado na maior parte do tempo dentro de um apartamento, Rasga Coração se apropria de momentos domésticos muito comuns para falar sobre o mundo, da “imensa solidão” de gente que não teve escolhas, da crença dessas mesmas pessoas de que tudo vai melhorar. Mas outra coisa fica bem clara: é justamente pelo mundo ser cheio de velhos problemas, que o novo tem tanto a aprender com o velho. No caso, o velho pode vir na forma aquele pai careta, cansado e cheio de dores no corpo, mas que com certeza viveu e aprendeu muito mais do que ele mesmo imagina.

 

Chacrinha – O Velho Guerreiro (Now)

A história de José Abelardo Barbosa (Stepan Nercessian) desde a época de sua juventude, quando decide largar a faculdade de Medicina para se aventurar como locutor em uma rádio. Após começar a fazer barulho no rádio, ele é convidado a se aventurar na televisão e revoluciona os programas de auditório, apresentando vários nomes importantes da música brasileira.

Diretor de filmes cultuados como GêmeasEu Tu Eles e Casa de AreiaAndrucha Waddington fez uma guinada no sentido de um cinema mais comercial nos últimos trabalho, em especial com Os Penetras e Os Penetras 2 – Quem Dá Mais?. Agora, chega aos cinemas com Chacrinha – O Velho Guerreiro, uma biografia bem comercial e quadrada.

Chacrinha, como era conhecido José Abelardo Barbosa, foi um dos maiores nomes do rádio e da televisão brasileira, influenciando e lançando inúmeros sucessos da música nacional. O filme procura traçar a história de início, meio e fim da vida do artista. E até por isso, tem dificuldade em ser bem sucedido.

A obra tenta englobar coisa demais, então é impossível não sentir que estamos diante de algo superficial. São vários os pulos no tempo, e muitas vezes estes acabam fazendo com que momentos mais desafiadores da carreira do artista, especialmente no início, fiquem parecendo simplórios.

Eduardo Sterblitch vive Abelardo quando jovem, retratando o início dele no Rio de Janeiro e suas aventuras no rádio. Ainda que um pouco exagerado, o ator tem bons momentos. Quando mais velho, o personagem é vivido por Stepan Nercessian, numa performance divertida, mas caricata. É mais uma imitação do que uma grande atuação.

Valorizando mais as polêmicas e o temperamento forte, o filme falha ao retratar a importância do artista na vida cultural e televisiva brasileira. O que temos é um fanfarrão. É uma atuação (e uma produção) bem inferior ao visto recentemente em Bingo – O Rei das Manhãs, para citar outro filme sobre uma personalidade da TV nacional.

A vida pessoal de Chacrinha é explorada, mas sempre de forma a privilegiar o folclore ao invés dos dramas íntimos do artista. Mesmo um acidente que abalou sua família é retratado de forma rápida e pouco desenvolvida.

O longa conta com um vasto leque musical, retratando inúmeras canções, artistas e banda que participaram do programa de Chacrinha. Neste sentido, oferece cenas divertidas e atrativas para os espectadores. Ao mesmo tempo, é uma solução simples. O que temos é um verdadeiro “concurso de cosplays”, com atores caracterizados como ícones da música como Clara Nunes, Raul Seixas, Rita Cadilac, Elke Maravilha, dentre vários outros.

Chacrinha – O Velho Guerreiro conta com bom figurino e desing de produção, mas o roteiro superficial de Claudio Paiva não deixa o projeto decolar. Quem conhecia pouco sobre Abelardo, segue sem saber muito

Lionheart

Seu pai adoeceu. Agora, Adaeze tem de dividir a direção dos negócios da família com seu tio e provar seu valor em um mundo dominado por homens.

Culpa (Now)

O policial Asger Holm (Jakob Cedergren) está acostumado a trabalhar nas ruas de Copenhaguem, mas devido a um conflito ético no trabalho, é confinado à mesa de emergências. Encarregado de receber ligações e transmitir às delegacias responsáveis, ele é surpreendido pela chamada de uma mulher desesperada, tentando comunicar o seu sequestro sem chamar a atenção do sequestrador. Infelizmente, ela precisa desligar antes de ser descoberta, de modo que Asger dispõe de poucas informações para encontrá-la. Começa a corrida contra o relógio para descobrir onde ela está, para mobilizar os policiais mais próximos e salvar a vítima antes que uma tragédia aconteça.

A jovem Iben é sequestrada pelo ex-marido Michael, que tem antecedentes criminais e luta pela guarda das crianças. Ameaçando-a com uma arma, ele a coloca dentro de um carro e começa a dirigir pela autoestrada, sem um destino preciso. Os filhos pequenos ficam em casa sozinhos. A tensa história poderia se encaixar num suspense clássico, se não fosse por um fator essencial: o espectador não vê Iben, Michael, nem a pequena filha Mathilde. Não sabemos que aparência têm, onde se encontram, para onde vão. Isso porque eles se limitam a vozes ao telefone, escutadas por Asger (Jakob Cedergren), policial e atendente do setor de emergência.

 

Esta é ao mesmo tempo a história de Iben e de Asger – uma ocupando o som, e o outro, a imagem. O policial adoraria sair para a rua, pegar um carro e partir em busca da mulher sequestrada, mas ordens dos superiores o impedem de fazê-lo. Portanto, o suspense dirigido por Gustav Möller se constrói sobre uma curiosa omissão: o protagonista precisa resolver o caso sem sair da delegacia. Ele tenta ligar para outros policiais, para a vítima, para o criminoso, para a filha, para seus contatos pessoais. O nosso herói não é um homem de ação, como de costume nos códigos hollywoodianos, e sim um sujeito de estratégia. Enquanto o som sugere uma aventura tensa, a imagem representa a imobilidade.

 

 

Culpa poderia soar repetitivo, ou tedioso, por mostrar um espaço e um personagem únicos. Felizmente, o cineasta é astucioso o bastante para criar um elegante ambiente em scope, utilizando sabiamente a montagem para explorar diversos ângulos, luzes e ritmos. À medida que a investigação avança, Asger é colocado em ambientes literalmente mais escuros e apertados, como se a asfixia da mulher sequestrada se transmitisse ao policial. A direção de som sabe usar muitíssimo bem os silêncios, além dos diálogos marcados pelas repetições e incertezas da linguagem oral. Mesmo os ruídos de carros, pneus, setas e para-brisas compõem uma trilha sonora ritmada e empolgante.

 

Um dos aspectos mais interessantes do filme é sua capacidade de sugerir imagens sem precisar mostrá-las. O andamento do caso possui tantas reviravoltas e detalhes – físicos ou psicológicos – que o espectador dispõe de elementos suficientes para imaginar sua própria Iben, sua versão de Michael, o interior do carro, a casa do sequestrador invadida pelos policiais. Ao contrário dos blockbusters que colocam seu público em posição passiva, como receptores de estímulos, este projeto solicita nossa atenção para cada nova peça do amplo quebra-cabeça. Retornamos ao cinema como storytelling, e não como espetáculo: os personagens contam a história ao mesmo tempo a Asger e ao espectador, que tentam juntos desvendar o crime em tempo real.

 

 

Culpa não difere tanto das histórias contadas por pais aos filhos antes de dormir, ou às histórias de terror compartilhadas entre adolescentes ao redor de uma fogueira. Em todos estes casos, cabe ao interlocutor preencher as imagens com sua bagagem e experiência pessoais, personalizando a narrativa de modo a tornar a identificação mais forte. Em determinados momentos, a narrativa ameaça transformar Asger no sujeito bondoso e corajoso demais, apenas para segurar as rédeas e preservar o estilo preciso, contido, desenhando discretamente um paralelismo entre o policial e a vítima, ambos corroídos pelo sentimento de culpa citado no título.

 

Como Jakob Cedergren é filmado apenas pelo rosto e torso, o ator trabalha muito na variedade das expressões, nos gestos com as mãos tensas, de modo a transmitir o universo particular deste personagem. Ao fim, o projeto soa como uma ousadia e um exercício de linguagem, como se alguém tivesse lançado um desafio a Möller: você conseguiria elaborar uma história angustiante e ágil filmando apenas o rosto de um homem sentado à mesa de um escritório? Desafio cumprido com sobra, através do uso incrivelmente esperto da linguagem cinematográfica. O espectador raras vezes acompanhará com tamanho interesse a jornada de personagens que sequer aparecem nas imagens.

Green Book (UCI New York Center – Sala 08 Vip)

1962. Tony Lip (Viggo Mortensen), um dos maiores fanfarrões de Nova York, precisa de trabalho após sua discoteca, o Copacabana, fechar as portas. Ele conhece um um pianista e quer que Lip faça uma turnê com ele. Enquanto os dois se chocam no início, um vínculo finalmente cresce à medida que eles viajam.

Lançado em 1989, Conduzindo Miss Daisy recebeu o Oscar de Melhor Filme e se tornou um feel good movie para muita gente. Carregado por grandes atuações, tinha a premissa simples sobre uma senhora branca conservadora que era obrigada a se adaptar com um motorista negro. O filme gerava discussões sobre racismo e desigualdade, mas o fazia ainda diante de uma relação de trabalho “tradicional”, em que o negro é a pessoa hierarquicamente subordinada.Agora, quase trinta anos depois, Green Book chega com premissa parecida, mas com dinâmica pessoal e profissional invertida, em que um negro contrata um sujeito branco e racista para trabalhar como seu motorista e assistente. A troca de papéis parece pequeno detalhe, mas é fundamental para criar uma obra ainda mais complexa.Tony Lip (Viggo Mortensen) é o tradicional brucutu ítalo-americano que leva a vida com pequenos serviços. Em um deles, trabalha…

Nasce Uma Estrela (1937) – Now

A Star Is Born (1937) (Nasceu uma Estrela BRA ou Nasce uma Estrela POR) é um filme de drama romântico norte-americano de 1937, dirigido por William A. Wellman e produzido por David O. Selznick para a United Artists. Roteiro de William A. Wellman, Robert Carson, Dorothy Parker e Alan Campbell.[3] O filme conta a história de Esther Blodgett, uma jovem que tem o sonho de entrar para o showbiz. É estrelado por Janet Gaynor e Fredric March.

 

Esther Victoria Blodgett mora em Dacota do Sul e anseia em se tornar uma atriz de Hollywood. Apesar de sua tia e pai desencorajarem tais pensamentos, a avó de Ester lhe dá suas economias para seguir seu sonho.

Esther vai para Hollywood e tenta conseguir um emprego como figurante, mas muitos outros tiveram a mesma ideia tanto que a agência de seleção parou de aceitar inscrições. Esther fica sabendo que suas chances de se tornar uma estrela são de uma em um milhão. Ela faz amizade com um novo hóspede na pensão em que mora, o robusto assistente de diretor Danny McGuire, também desempregado. Quando Danny e Esther vão a um concerto no Hollywood Bowl para comemorarem um emprego de McGuire, Esther vê pessoalmente pela primeira vez o ator Norman Maine, de quem é grande admiradora. Norman tem sido uma grande estrela durante anos, mas seu alcoolismo lançou sua carreira ao declínio.

Danny consegue para Esther um trabalho como garçonete em uma festa de Hollywood. Ao servir os hors d’oeuvre, chama a atenção de Norman. Ele encontra seu produtor e bom amigo de longa data, Oliver Niles, e pede que faça um teste com Esther. Impressionado, Oliver lhe dá um novo nome, Vicki Lester, e um contrato. Ela pratica as poucas linhas para seu primeiro papel minúsculo.

No entanto, quando o estúdio tem problemas para encontrar uma protagonista para o filme atual de Norman, intitulado The Enchanted Hour, Norman convence Oliver a lançar Esther. O filme faz dela um sucesso, assim como os espectadores continuam a perder o interesse em Norman.

Norman pede Vicki em casamento e ela aceita quando ele prometer parar de beber. Eles fogem do mainstream, para desfrutar de uma lua de mel em um acampamento nas montanhas. Quando eles retornam, a popularidade de Vicki continua a disparar, enquanto Norman percebe que sua própria carreira acabou, apesar das tentativas de Oliver para ajudá-lo. Norman permanece sóbrio por um tempo, mas a sua frustração sobre a sua situação, finalmente, o empurra para a bebida. Ele começa a beber novamente. Quando Vicki ganha um dos melhores prêmios da indústria do cinema, ele interrompe o seu discurso de aceitação, bêbado, exigindo três prêmios para a pior atuação do ano.

A estadia em um sanatório para curar o alcoolismo parece cada vez mais perturbador para Norman, mas um encontro casual com Libby dá ao assessor de imprensa uma oportunidade para desabafar seu desprezo escondido. Norman continua bebendo. Ester decide desistir de sua carreira para dedicar-se à sua reabilitação. Depois que Norman a ouve discutir o seu plano com Oliver, decide se suicidar e se afoga no Oceano Pacífico.

Triste, Vicki decide sair e ir para casa. Logo depois, sua avó aparece e a convence reagir. Na estreia de seu próximo filme no Teatro Chinês, Vicki é convidada a dizer algumas palavras no microfone. Com muitos fãs em todo o mundo ouvir, ela anuncia: “Olá a todos. Esta é a Sra. Norman Maine”.