• +(21) 99639-3362
  • contato@guilhermekroll.com

A Forma da Água

A Forma da Água

Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

 

A Forma da Água é mais um atestado da excelência de Guillermo del Toro como diretor e roteirista (não à toa, o filme recebeu 13 indicações ao Oscar em 2018), em especial a sua habilidade de contar histórias que capturem o melhor dos elementos das narrativa infantis traduzindo isso para o público adulto. Para entender melhor, basta olhar para alguns outros títulos de sua carreira, como os elementos fantásticos da quase fábula que é O Labirinto do Fauno (2006), ou a adaptação dos quadrinhos de Hellboy (2004) e quem sabe ainda a experiência em animação como na série Caçadores de Trolls (2016-), livro escrito pelo próprio del Toro.

Isso se expressa em A Forma da Água, que mesmo em seus momentos mais pesados, tem uma leveza e se aproveita do fantástico para abordar, de forma profunda, os problemas sociais. Também se representa no principal antagonista da história, Richard Strickland (Michael Shannon), um vilão clássico sem nenhuma qualidade compensadora e, assim como um vilão de fábula ou quadrinho, é puramente mal.

A história acompanha Elisa Esposito (Sally Hawkins), uma faxineira muda que trabalha numa base militar americana. Elisa tem um grande amor pela vida, apreciando atentamente os detalhes de sua rotina, seja através da janela do ônibus, dos musicais na TV ou dos dramas de seus dois melhores amigos, Zelda (Octavia Spencer) e Giles (Richard Jenkins). De certa forma, Elisa vive através dos dois, sendo a ouvinte perfeita, mas não se comunicando de verdade, não da forma que ela mais deseja. Tudo muda quando uma espécie de anfíbio-humanoide (Doug Jones) é levado para ser mantido sob custódia na tal base. A conexão é instantânea e a fascinação de Elisa pelo prisioneiro acaba evoluindo para uma relação em que, pela primeira vez em sua vida, Elisa é o comunicador.

A relação entre os dois é extremamente carregada de simbolismo, já que a personagem de Hawkins oferece uma compaixão à dor do anfíbio, enquanto ele dá a ela a oportunidade de se sentir completa e compreendida. O momento político do filme, passado nos anos 60, também é importante para trama. Diretamente, a tensão política e a corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética são o ponto mais importante, mas, questões como as tensões raciais e a homossexualidade são tratadas através dos personagens, diálogos e até imagens de TV. Novamente puxando de sua bagagem das fábulas, Guillermo del Toro consegue apresentar muito claramente o certo e o errado, sem ser piegas ou cliché ao usar personagens “bons” para demonstrar empatia quanto às minorias e os “ruins” para reproduzir pensamentos racistas e homofóbicos.

Vale ressaltar que A Forma da Água tem uma das sequências de abertura mais belas do cinema recente. Uma fusão perfeita entre a belíssima trilha sonora (que lembra em algum nível o piano de Yann Tiersen, em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, filme de 2001), os sons que preenchem a rotina da personagem muda, Elisa – desde o barulho dos passos no piso de madeira, ovos sendo cozidos na água quente e do movimento da água na banheira -, além da presença constante do verde que prende a atenção da audiência desde o primeiro segundo.

Esse nível de atenção ao detalhe continua a seguir no filme, especialmente no que se diz à cor. Não se trata apenas das similaridades com o mar, Guillermo del Toro dá diversas piscadas para audiência ao fazer com que os próprios personagens expressem os seus gostos e discutam indiretamente o simbolismo da cor verde. Giles por exemplo, precisa mudar a cor da gelatina em uma propaganda que ele pintou de vermelho para verde e escuta do seu meio amigo, meio cliente que “verde é a cor do futuro”. Em contrapartida, Gile e Elisa comem uma torta de limão que os dois consideram horríveis, a mesma torta é vista sendo comida pela família de Richard Strickland sem nenhuma reclamação. Richard, por sinal, é viciado desde pequeno em doces verdes de uma marca específica. Ele também compra um carro que considera ser verde, mas que o vendedor discorde da cor.

Em termos de atuação, o filme está recheado de bons trabalhos. Sally Hawkins e Octavia Spencer foram indicadas, merecidamente, a melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, respectivamente. Sally está perfeita em seu papel e, sem precisar dizer uma palavra, conta mais do que qualquer outro personagem. Também merecedor, Richard Jenkins, na pele do delusional, doce e sofrido Giles, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, ele encena alguns dos momentos mais cativantes do filme. Michael Shannon entrega um personagem daqueles que você ama odiar. Michael Stuhlbarg não é muito falado, mas vive um dos personagens mais ricos da trama como o espião russo, Dr. Robert Hoffstetler, um homem da ciência mas cheio de valores morais e perfeito em transmitir os dilemas e alta tensão que o personagem vive.

A Forma da Água é um filme belíssimo e merecedor de suas indicações para esse ano, além de um dos favoritos para os prêmios de Melhor Direção e Melhor Filme. Carregado de simbolismo e lições valiosas, o longa vale bem mais que o valor do seu ingresso.

1