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Soldados do Araguaia

Soldados do Araguaia

Durante o período de ditadura militar no Brasil, um grupo de soldados de baixa patente foi enviado para a Amazônia a fim de exterminar a chamada Guerrilha do Araguaia, um movimento de luta armada que era contra a ditadura. Depois de quarenta anos, os sobreviventes desta missão relatam pela primeira vez suas experiências em combate.

Depois de tantas histórias de tortura de abusos de diretos praticados pelos militares durante a ditadura no Brasil, agora chega um novo episódio, ainda menos documentado e reconhecido pelo governo: a tortura infligida por militares a outros militares. O documentário de Belisario Franca se concentra no grupo de homens forçados a integrar o exército e combater um grupo de guerrilheiros no Pará sob pretexto de estarem servindo o país contra a “ameaça comunista” – sempre ela, o bicho-papão dos capitalismos ocidentais. Sem treinamento formal, foram enviados ao confronto na intenção de matar o máximo de homens possível. Se morressem, pouca falta fariam ao exército.

Soldados do Araguaia decide dar voz a estes homens invisíveis, desprezados por civis por terem integrado o exército e combatido os guerrilheiros de modo cruel, mas igualmente ignorados pelos militares que valorizam apenas os colegas devidamente treinados com eles. Aos poucos, os senhores anônimos relembram às câmeras uma série de maus-tratos que sofreram, incluindo o pau de arara, os ganchos metálicos enfiados sob a unha, a obrigação de ficarem em pé, atacados por insetos, as queimaduras voluntárias com cigarro, os ataques às suas famílias.

Em entrevista, psicólogos explicam a perversidade particular destes atos: se a tortura contra opositores políticos visa a obtenção de informações, os abusos praticados contra os novos soldados constituem puro sadismo, exercício do poder. Franca articula seu chocante discurso de modo tradicional, alternando depoimentos – em tom sóbrio, com luz contrastada e solene – e raras fotos disponíveis da época, além de ações genéricas de militares entrando nas florestas e carregando armas. Trata-se de uma representação vaga, uma indicação do universo belicoso sem rosto nem especificidade.

O documentário é prejudicado pelo agenciamento visual: nenhuma imagem está à altura do fortíssimo material sonoro. De certo modo, as imagens se limitam a preencher o som, sem aprofundar o discurso ou causar algum tipo de fricção. O conjunto imagético está subordinado ao som, relegado ao segundo plano. Os rostos dos soldados, com suas lágrimas e sua raiva, possuem uma relevância política e estética evidente. Para além dos semblantes dos homens, as imagens funcionam como pano de fundo ao longa-metragem.

Mesmo assim, Soldados do Araguaia desenvolve de maneira particularmente aprofundada o trauma desses homens. O cineasta dedica tempo considerável para que eles expliquem suas contradições, suas dores, suas fragilidades. Ao contrário dos projetos focados na reiteração de fatos, este se preocupa acima de tudo com o aspecto humano, num gesto de empatia e solidariedade louvável. Faltou apenas estabelecer um formato capaz de representar o trauma, simbolizá-lo em imagens ao invés de apenas ilustrá-lo.

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