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Filmes Brasileiros

Não Devore Meu Coração (Now)

Joca (Eduardo Macedo), um jovem de treze anos, descobre o amor quando conhece Basano (Adeli Benitez), uma menina paraguaia. No entanto, para conquistá-la, Joca passará por grandes dificuldades relativas a problemas na fronteira entre o Brasil e o Paraguai e seu irmão Fernando (Cauã Reymond), que pertence a uma perigosa gangue de motociclistas.

Os letreiros iniciais deste filme informam, em linhas gerais, as circunstâncias que motivaram a Guerra do Paraguai e a contagem oficial de mortos no genocídio. Citam também a atual rivalidade na fronteira entre o Paraguai e o Brasil como consequência deste período. Logo após, os letreiros informam que, neste contexto, “um garoto se apaixona por uma garota”. Passamos, no espaço de uma frase, dos fatos à lenda, da trajetória de uma nação à trajetória dos indivíduos.

 

Não Devore Meu Coração - FotoNão Devore Meu Coração costura estes elementos, colocando a realidade entre parênteses: ao adotar o ponto de vista do garoto Joca (Eduardo Macedo), o mundo torna-se desproporcional, absurdo. É difícil separar boatos de fatos aos treze anos de idade, por isso o roteiro mantém uma percepção imprecisa das circunstâncias ao longo de toda a narrativa. Joca não sabe se enxerga o irmão mais velho, Fernando (Cauã Reymond), como um protetor ou o perigoso membro de uma gangue de motoqueiros, não sabe se acredita no poder místico da garota paraguaia Basano (Adeli Gonzales) ou se tem condições de enfrentá-la.

 

O amor é mesclado com o ódio nesta espécie de mito fundador do folclore regional. Joca adora e detesta o irmão, adora e detesta Basano. As guerras perdem o impacto imediato devido a esta estrutura: os grupos rivais de motoqueiros competem “apenas por prazer”, segundo Fernando, mas os cadáveres boiam todos os dias no rio, e fala-se muito pouco a respeito. Aborda-se um confronto tacitamente consentido, em que os verdadeiros agentes de conflito estão nos bastidores, enquanto a população torna-se cúmplice.

 

Talvez por isso quase todos os personagens ganhem codinomes e personalidades alternativas: o irmão mais novo é chamado de Bruce Wayne, enquanto o mais velho é Clark Kent. O líder da gangue é Telecath, a garota paraguaia é “a tatuada”, a garota-crocodilo, uma figura selvagem que o brasileiro deseja apreender e domesticar. É curiosa a metáfora do amor como pacificador de conflitos entre duas nações, como nos séculos anteriores em que a realeza de países opostos casava seus filhos para evitar invasões. Aqui, embora haja amor da parte de Joca, a união não é consensual: Basano recusa os avanços do brasileiro. Ela representa a resistência histórica diante dos brancos.

 

Não Devore Meu Coração - FotoDurante uma parte considerável da narrativa, percebe-se a dificuldade em trabalhar o impacto mútuo das duas histórias paralelas. Os conflitos de Joca e de Fernando correm sem necessariamente se cruzar. Os raros pontos de intersecção correspondem aos momentos mais fortes do filme: as cenas familiares, com o pai postiço e o filho improvisado, evidenciam o bom trabalho de direção de elenco e o crescimento espantoso de Cauã Reymond como ator a cada novo filme. Ao mesmo tempo, algumas cenas podem parecer deslocadas, exageradas, mal explicadas – como nas lendas, aliás, nas quais os símbolos valem menos por sua função narrativa do que pela multiplicidade de significados oferecidos ao interlocutor.

 

O diretor e roteirista Felipe Bragança constrói essa história com efeitos lúdicos discretos, a exemplo da noite repleta de vaga-lumes, com direito a cenas noturnas que revelam a pixelização, o aspecto meio cru da captação digital. As belezas de Não Devore Meu Coraçãovão muito além do imaginário de fuga representado pelas fronteiras entre países. O filme abre-se à possibilidade do sonho, da releitura histórica pela metáfora do amor impossível. Não existe reconciliação entre Brasil e Paraguai nesta trajetória de perdedores. O próprio título, aliás, indica o domínio paraguaio nesta vingança simbólica: sempre foi Basano, a paraguaia selvagem, que teve controle do frágil brasileiro apaixonado.

 

Filme visto no 67º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017.

Cinépolis Lagoon 3: “Entre Irmãs”

Rasga Coração (Now)

Manguari Pistolão (Marco Ricca) é ao mesmo tempo um herói e um homem comum. Atuante na militância em boa parte da vida, agora ele terá que enfrentar o mesmo que seu pai enfrentou: o seu filho Luca (Chay Suede) pretende deixar a faculdade de Medicina e ingressar de vez no movimento hippie. Em um crescente conflito com as escolhas do filho, ele verá seu passado sendo reiventado na figura dele.

Existe algo curioso na psicologia das lutas sociais: muito mais difícil do que compreender porque as pessoas se revoltam contra o sistema, é entender porque param de se revoltar. Se a história guarda as trajetórias de militantismo com orgulho ou desdém – dependendo do lado do espectro político em que você se encontre –, pouco se diz sobre o esfacelamento dos movimentos, a dissolução dos grupos e a adesão, ainda que parcial, ao sistema criticado como forma de sobrevivência. Muitos jovens devem ter estudado como começou, e como se desenvolveu, o maio de 1968 na França. Mas de que modo ele terminou? Acima de tudo, que impacto aquele instante produziu nas gerações posteriores?

 

Rasga Coração busca compreender, com generosa dose de afeto, a herança da resistência contra a ditadura militar no Brasil de hoje. O símbolo principal destas gerações é Manguari Pistolão (Marco Ricca), pai de família que praticava, em sua juventude, a resistência contra os militares. “É por causa de política que ele não subiu na vida”, lembra a mãe conformista que, no entanto, ama o marido e compreende sua verve questionadora. Em seu tempo, o jovem Manguari (interpretado por João Pedro Zappa) lutava nas ruas, enfrentava a tortura dos militares, rejeitava o patriotismo belicoso. Décadas mais tarde, ele trabalha todos os dias na mesma repartição, distante de disputas políticas, até perceber o filho adolescente (Chay Suede) aderindo a novas formas de protesto.

 

 

O roteiro é rico em discussões sobre as mais diversas formas e razões de lutar, entre os séculos XX e XXI. Hoje o filho é vegano, buscando um tipo de revolução do corpo que o pai não entende. Na sua época, os combates eram coletivos, nas ruas, com panfletos, ações sociais, gritos de ordem. Tempos depois, os jovens querem lutar pelo direito de homens usarem saias, mulheres disporem de seus corpos como bem entenderem. O mérito do texto é perceber que estes combates são idênticos em sua essência (por apoiarem a liberdade do indivíduo, a distribuição de renda e o combate às opressões), mas distintos em suas características culturais e formas de atuação.

 

“Nossa dor é perceber / Que apesar de termos feito tudo o que fizemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos como nossos pais”, cantava Elis Regina, numa canção que descreveria perfeitamente o misto de orgulho e decepção que contamina os atores contemporâneos das lutas de ontem. Ou ainda: “As coisas podem parecer novas para você, mas o mundo é cheio de velhos problemas”, como explica o pai ao filho. Esta comparação entre gerações é feita de modo clássico pela montagem, que alterna imagens do presente e do passado, comparando com humor e leveza as lutas de Manguari e aquelas do filho Luca. O mundo mudou, mudou e continuou igual. Como não perder a coragem depois de tanto tempo e tanto sangue investido na causa?

 

É muito belo, e um tanto ingênuo, perceber o pai reganhando forças de lutar devido ao filho, mesmo que não se adeque aos novos tempos. Rasga Coração é um filme impregnado de nostalgia, uma espécie de tom crepuscular visto na câmera que passeia pela fachada dos prédios anônimos, nos preços das compras no supermercado, no cadáver abandonado ao meio-fio, que ninguém vem buscar. Furtado, que sempre soube equilibrar drama, comédia e crítica social como ninguém, retorna à melhor forma ao dirigir Marco Ricca, comovente em seus pequenos gestos e olhares no parapeito da janela, Drica Moraes, sempre tão talentosa com diálogos, capaz de passar da raiva à comédia em segundos, e Chay Suede, uma presença indispensável do novo cinema brasileiro, de estilo despojado e natural.

 

 

A interação entre eles é tão realista quanto verossímil, em decorrência dos excelentes diálogos e da coreografia discreta da câmera no apartamento, invisível em sua transição de corpo a corpo, de rosto a rosto. O cineasta nunca foi vaidoso, jamais buscou grandes estripulias de câmera, e sua precisão se torna ainda mais afiada e contida neste caso. As cenas do passado, igualmente, transbordam carinho e vigor juvenil, ainda que o histrionismo de Bundinha (George Sauma), por mais divertido e bem atuado que seja, soe cansativo pela ausência de variações. Mas Zappa e os demais atores deste núcleo se saem muitíssimo bem na crônica dos prazeres e excessos da juventude.

 

Rasga Coração se encerra com uma cena comovente, espécie de constatação que as lutas são feitas de concessões e rupturas. É preciso destruir um sistema para construir outro no lugar, diriam os revolucionários do século XX. Após tantas discussões políticas e ideológicas, o filho enfim se sente pronto para olhar o futuro e seguir em frente. Enquanto isso, o pai enfim encara os traumas do passado e relembra tanto o furor da juventude quando o cansaço que o levaram à vida de comodidades. Ninguém está certo, nem errado em seu modo de agir. Na calçada em frente ao imóvel, a mancha de sangue do cadáver abandonado relembra as marcas que não se apagam mais.

 

Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.

Em uma das primeiras cenas de Rasga Coração, adaptação da peça homônima de Oduvaldo Vianna Filho, Custódio (Marco Ricca) e Nena (Drica Moraes) discutem as despesas deixadas por seu filho Luca (Chay Suede), que seria o pesadelo encarnado de alguns pais: ativista, vegano e completamente rebelde. O pai, que era ativista quando jovem e agora ocupa um cargo burocrático no trabalho, abre mão de investimentos básicos para sustentar os gostos particulares do filho, e faz isso de bom grado – mas até quando?

Essa tensão percorre todo o filme, dirigido por Jorge Furtado (Saneamento Básico: O Filme). Em paralelo ao dia a dia atual de Custódio como pai, acompanhamos cenas de sua carregada juventude militante, apelidado como Manguari Pistolão (João Pedro Zappa). No caso de quem não conhece o material original – que nem esse cara aqui -, só passamos a saber disso um pouco mais à frente, numa decisão simples mas muito inteligente do roteiro, assinado por Furtado, Ana Luiza Azevedo e Vicente Moreno, que transpõe a trama original escrita na década de 70 para os dias atuais.

Contando com a montagem dinâmica de Giba Assis Brasil para tecer comparações diretas entre gerações, a adaptação de Furtado ganha grande peso emocional e satírico por ser tão próxima às realidades de muitas famílias de classe média, especialmente aquelas cujos integrantes mais jovens podem ser descritos mais precisamente como “de humanas”. Contudo, por mais que existam fortes elementos de sátira inseridos no texto e até mesmo na execução visual do longa, Rasga Coração nunca recorre a caricaturas e nem debocha de seus personagens.

Cada personagem pode de fato possuir uma personalidade muito marcada, alguns até sendo completos estereótipos, mas neles há sempre uma dimensão adicional prestes a se revelar. Mesmo o pai de Custódio, jocosamente apelidado de 666 (Nélson Diniz) e inicialmente contrastado como um sujeito muito mais ríspido que o filho em suas funções paternas, mostra uma compreensão inesperada a certo ponto, como se reconhecesse sua rispidez como uma obrigação sem sentido. Neste caso, a tipificação das personagens ajuda também a universalizar os sentidos do enredo com mais eficiência.

Por mais que o foco seja na figura de Custódio, que rumina sobre seu próprio passado e passa por uma desconstrução, pode-se dizer que novas camadas de Luca ficam aparentes no processo. Ambos “fogem do poder” em suas respectivas juventudes, desacreditados com o sistema que impera, mas não poderiam estar mais distantes pelos diferentes contextos vividos. Embora a obra nunca desmereça o ativismo de Luca, nota-se que, do pai ao filho, essa rebeldia perde significado, tornando-se muito mais uma atitude simbólica ou mesmo recreativa.

Na justaposição entre passado e presente, percebe-se uma diferença gritante entre os ativismos de ontem e hoje. Enquanto Custódio põe a cara a tapa em plena ditadura militar, sofrendo duras consequências por seus atos, Luca e seus amigos militantes depredam sua escola particular quase como uma recreação, um rolê. O longa também faz provocações oportunas sobre a falta de alteridade no ativismo jovem de classe média, que por vezes exclui outras vozes e deixa de rever estratégias. Por isso, a figura de Talita (Cinândrea Guterrez), uma jovem negra e filha de um antigo camarada de Custódio, denota a falta de interseccionalismo na causa dos colegas quando desvalorizam sua fala – e uma profunda ignorância deles quanto às heranças da garota.

Assim, quando o roteiro passa a situar Talita a Luca no mesmo espaço, fica cada vez mais perceptível que o problema do rapaz não é a rebeldia, mas sua falta de perspectiva individual. Enquanto ele despreza a ideia de ir à faculdade ou prestar vestibulares, a garota vê tais oportunidades como um sonho – ainda assim, o desejo dela de se adequar ao sistema não faz dela menos militante e nem anula suas heranças culturais e políticas. Apesar do engajamento político, Luca tem o privilégio do tempo, do conforto, e parece driblar obrigações para que isso continue assim.

Dessa maneira, vai se revelando um estudo de Luca como um jovem que adia a chegada da vida adulta, vendo sua postura ativista mais como o próprio objetivo do que um caminho para seu futuro. Por isso, é de uma grande beleza ver que o pai, inicialmente a figura acomodada e careta, reencontre suas formas de expressão e seja aquele a tirar o filho da acomodação. Em uma sequência que praticamente cola duas discussões familiares, Custódio muda sua atitude e expõe seus pontos de vista num diálogo estarrecedor, revelando-se um sujeito muito mais observador do que seu filho acreditava.

Porém, mesmo com sua densidade temática e tudo mais, o filme de Furtado consegue ser muito mais bem-humorado do que se espera. O diretor acerta o timing das situações com seus atores, que, diga-se de passagem, estão excelentes. Ricca, Moraes e Suede formam uma tríade poderosa em cena, cada um dominando bem seu papel. Enquanto isso, em flashbacks, Zappa faz um bom trabalho como o jovem Custódio, e George Sauma traz uma camada de angústia ao escandaloso Lorde Bundinha – suas cenas, no entanto, são as mais teatrais em registro, e acabam destoando das demais.

Ambientado na maior parte do tempo dentro de um apartamento, Rasga Coração se apropria de momentos domésticos muito comuns para falar sobre o mundo, da “imensa solidão” de gente que não teve escolhas, da crença dessas mesmas pessoas de que tudo vai melhorar. Mas outra coisa fica bem clara: é justamente pelo mundo ser cheio de velhos problemas, que o novo tem tanto a aprender com o velho. No caso, o velho pode vir na forma aquele pai careta, cansado e cheio de dores no corpo, mas que com certeza viveu e aprendeu muito mais do que ele mesmo imagina.

 

Chacrinha – O Velho Guerreiro (Now)

A história de José Abelardo Barbosa (Stepan Nercessian) desde a época de sua juventude, quando decide largar a faculdade de Medicina para se aventurar como locutor em uma rádio. Após começar a fazer barulho no rádio, ele é convidado a se aventurar na televisão e revoluciona os programas de auditório, apresentando vários nomes importantes da música brasileira.

Diretor de filmes cultuados como GêmeasEu Tu Eles e Casa de AreiaAndrucha Waddington fez uma guinada no sentido de um cinema mais comercial nos últimos trabalho, em especial com Os Penetras e Os Penetras 2 – Quem Dá Mais?. Agora, chega aos cinemas com Chacrinha – O Velho Guerreiro, uma biografia bem comercial e quadrada.

Chacrinha, como era conhecido José Abelardo Barbosa, foi um dos maiores nomes do rádio e da televisão brasileira, influenciando e lançando inúmeros sucessos da música nacional. O filme procura traçar a história de início, meio e fim da vida do artista. E até por isso, tem dificuldade em ser bem sucedido.

A obra tenta englobar coisa demais, então é impossível não sentir que estamos diante de algo superficial. São vários os pulos no tempo, e muitas vezes estes acabam fazendo com que momentos mais desafiadores da carreira do artista, especialmente no início, fiquem parecendo simplórios.

Eduardo Sterblitch vive Abelardo quando jovem, retratando o início dele no Rio de Janeiro e suas aventuras no rádio. Ainda que um pouco exagerado, o ator tem bons momentos. Quando mais velho, o personagem é vivido por Stepan Nercessian, numa performance divertida, mas caricata. É mais uma imitação do que uma grande atuação.

Valorizando mais as polêmicas e o temperamento forte, o filme falha ao retratar a importância do artista na vida cultural e televisiva brasileira. O que temos é um fanfarrão. É uma atuação (e uma produção) bem inferior ao visto recentemente em Bingo – O Rei das Manhãs, para citar outro filme sobre uma personalidade da TV nacional.

A vida pessoal de Chacrinha é explorada, mas sempre de forma a privilegiar o folclore ao invés dos dramas íntimos do artista. Mesmo um acidente que abalou sua família é retratado de forma rápida e pouco desenvolvida.

O longa conta com um vasto leque musical, retratando inúmeras canções, artistas e banda que participaram do programa de Chacrinha. Neste sentido, oferece cenas divertidas e atrativas para os espectadores. Ao mesmo tempo, é uma solução simples. O que temos é um verdadeiro “concurso de cosplays”, com atores caracterizados como ícones da música como Clara Nunes, Raul Seixas, Rita Cadilac, Elke Maravilha, dentre vários outros.

Chacrinha – O Velho Guerreiro conta com bom figurino e desing de produção, mas o roteiro superficial de Claudio Paiva não deixa o projeto decolar. Quem conhecia pouco sobre Abelardo, segue sem saber muito

Tudo Por Um Popstar (Now)

A banda pop Slavabody Disco Disco Boys, febre entre as meninas de todo o Brasil, anuncia que irá tocar no Rio de Janeiro. Fãs de carteirinha do grupo, as adolescentes e melhores amigas Gabi (Maísa Silva), Manu (Klara Castanho) e Ritinha (Mel Maia) farão de tudo para que seus pais deixem que elas assistam ao show do grupo longe da cidade onde moram.

O amor a um ídolo ou uma banda, a vontade de quebrar qualquer barreira (até mesmo física) e o objetivo único de ter um simples momento de fã moldam Tudo por um Popstar, filme baseado em livro homônimo de 2003 escrito por Thalita Rebouças. Focado nas experiências de três adolescentes, o longa possui uma premissa simples e direta, com uma pergunta cuja resposta é praticamente universal: Quem nunca foi fã de um grupo ou um artista que deu a chance de ver a vida de outra forma, mais colorida descomplicada? Que atire a primeira pedra aquele que dizer que nunca passou por tal fase.

A ingenuidade e a dedicação de Gabi (Maísa Silva), Manu (Klara Castanho) e Ritinha (Mel Maia) para com seus ídolos, a banda Slavabody Disco Disco Boys, de fato traz uma nostalgia àqueles que já passaram pela fase de adoração e ansiedade com relação a figuras marcantes. Porém, o clima de “veneração” não dita todo o clima do filme, e com o passar da viagem do trio para o Rio de Janeiro (local em que um show da Slavabody irá acontecer) vemos inúmeras situações sem muito sentido acontecerem – por mais que elas sirvam para compor a mensagem do filme, que é a da amizade.

A união de Gabi, Manu e Mel é o que dá gás para a narrativa, que mesmo intercalando entre momentos nonsense, traz algumas reflexões: ao mesmo tempo em que Tudo por um Popstar resgata parte das sensações do que é ser fã, há o questionamento se todo o esforço vale ou não a pena, pois a euforia com relação a pessoas que mal te conhecem pode passar de um dia para o outro. Mesmo que de maneira rasa, essa questão está lá, mas o filme deixa claro que o que importa, no fim do dia, é que tais vivências podem trazer aprendizados para a vida toda, assim como amadurecimentos.

Mesmo que provoque pensamentos interessantes, o tom de sátira acaba tirando a atenção para as partes mais sérias do roteiro na maior parte do tempo. Personagens como o de Felipe Neto, que interpreta um blogueiro ranzinza, e da própria Giovanna Lancellotti (como Babette, a prima hippie de Manu), entregam a parcela de espírito cômico ao filme, mas ao mesmo tempo tiram do mesmo uma dramaticidade que poderia ser bem aproveitada. Ao invés disso, existe até mesmo a inclusão de uma richa entre meninas que, além de completamente desestruturada, não é bem resolvida.

Com situações previsíveis e fáceis demais, exibindo uma realidade bem diferente da que os fãs passam para ver seus ídolos, é difícil encontrar um foco em Tudo por um Popstar que não seja o de resgatar sensações vividas nesta fase da vida. Até mesmo os próprios Slavabodys são apresentados de maneira artificial, não havendo desenvolvimento com relação às suas histórias ou como chegaram até ali. Tudo fica nas costas do trio de meninas, que ao menos garantem uma grata sintonia.

Tudo por um Popstar retoma uma sensação que só é possível vivenciarmos na adolescência, quando os sonhos relacionados aos ídolos parecem ser possíveis e alcancáveis com facilidade. Com exceção do trio principal e seu objetivo, o restante soa sintético e reduzido a clichês pensados para o público-alvo da produção, mas ainda assim é possível simpatizar com as aventuras rocambolescas apresentadas em sequência

A Cidade Onde Envelheço

Se cada país tem sua cultura e particularidades, inevitável é lidar com um certo choque ao viajar para outras localidades – e nem necessariamente precisa ser no exterior, vide as imensas diferenças existentes no próprio Brasil. Trata-se de uma sensação íntima de estranhamento, de não-pertencimento aquele lugar, por mais que esteja nele habituado e até mesmo adaptado. Algo que Caetano Veloso captou tão bem na canção “Sampa”:

“Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho”

A Cidade Onde Envelheço, novo trabalho da diretora Marília Rocha, trata justamente deste sentimento, retratado a partir de duas amigas portuguesas que decidem vir morar no Brasil. Uma delas já vive em Belo Horizonte há quase um ano, enquanto que a outra acaba de chegar. De personalidades quase antagônicas – Francisca gosta da solidão, é perfeccionista e mais séria, enquanto Teresa é espevitada e agitada -, elas de início se respeitam e, aos poucos, desenvolvem uma dinâmica mais próxima a partir da própria convivência e da compreensão das características da outra. É neste ponto que o longa brilha, intensamente.

Bastante delicado, o roteiro do longa-metragem oferece diálogos espirituosos e envolventes, de uma naturalidade impressionante. A natureza crítica de Francisca leva a alguns questionamentos sobre o modo de ser do brasileiro, no sentido do estranhamento do diferente tão bem citado por Caetano, mas sempre com uma leveza típica de um filme solar. Por outro lado, há também uma certa melancolia, retratada pela saudade de casa e o reconhecimento íntimo de que tal desconforto nada mais é do que a dificuldade de aceitar aquilo como seu.

A Cidade Onde Envelheço - FotoDiante de tamanha habilidade com sensações e palavras, A Cidade Onde Envelheço ainda conta com belas atuações de suas protagonistas: Francisca Manuel (Francisca) e Elizabete Francisca Santos (Teresa). Por mais que por vezes seja difícil compreender o sotaque português de ambas, elas demonstram uma desenvoltura que potencializa a proposta do roteiro.

Bastante sensível, A Cidade Onde Envelheço é um filme que fala sobre as opções de vida que assumimos. Se por um lado traz a alegria da descoberta pela vida em um novo ambiente, e a necessária adequação às suas particularidades, aborda intrinsecamente nossas origens, aquilo que nos tornou o que somos. Isto entremeado a situações brasileiras muito bem pontuadas, como a sinceridade malandra do divertidíssimo Neguinho (Wederson Neguinho), o cenário do rock alternativo em Belo Horizonte, o jogo de sinuca entre as amigas e a bela sequência pontuada pela canção de Jards Macalé. Um belo filme, para ver e refletir.

Mostra Hugo Carvana na Tv Brasil: Apolônio Brasil – Campeão da Alegria (2002)

Elis

Elis é um filme de drama brasileiro, uma obra biográfica sobre a cantora Elis Regina. Foi adaptado e dirigido por Hugo Prata. O filme entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 24 de novembro de 2016.

O filme retrata a vida intensa da consagrada cantora Elis Regina, desde quando começou a carreira, aos 18 anos, saindo de Porto Alegre e se mudando para o Rio de Janeiro, até o auge de seu sucesso, que romperam as fronteiras do Brasil, a concedendo uma imponente carreira internacional. A sua grandiosa e meteórica ascensão na música, assim como o peso da fama, atribuídos a uma vida pessoal conturbada, a perseguiram até sua fatídica morte, ocorrida em São Paulo, em 19 de janeiro de 1982, em decorrência de uma overdose de cocaína e bebida alcoólica.

Elenco
Andreia Horta como Elis Regina[1]
Gustavo Machado como Ronaldo Bôscoli[1]
Caco Ciocler como César Camargo Mariano[1]
Lúcio Mauro Filho como Luís Carlos Miele[1]
Júlio Andrade como Lennie Dale
Zé Carlos Machado como Romeu Costa[1]
Rodrigo Pandolfo como Nelson Motta
Ícaro Silva como Jair Rodrigues
César Troncoso Barros como Marcos Lázaro
Eucir de Souza como Samuel
Natallia Rodrigues como Beth
Aramis Trindade como Tenente Souza
Alex Teix como Armando Pittigliani
Bruce Gomlevsky como Henfil
Isabel Wilker como Nara Leão

O Candidato Honesto 2

O Candidato Honesto

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