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Um Suburbano Sortudo

Um Suburbano Sortudo

Denílson (Rodrigo Sant’anna) é um simples camelô do subúrbio, mas sua vida muda quando seu até então desconhecido pai biológico morre, deixando para ele toda o seu legado milionário. Junto com a fortuna, porém, Denílson herda também a família insatisfeita e endividada do falecido, que fará de tudo para colocar as mãos nessa herança.

Não há dúvidas de que Rodrigo Sant’anna é um comediante talentoso. Nascido e crescido no subúrbio carioca, o ator tem uma habilidade especial para interpretar tipos populares de forma exagerada e cômica, desde a Valéria do quadro do humorístico Zorra Total aos seis papéis que encarna neste Um Suburbano Sortudo. Só é uma pena que toda essa inteligência seja usada para o mal.

Um Suburbano Sortudo - PosterNo novo filme do diretor Roberto Santucci (que divide o cargo com Marcelo Antunez), em mais uma história de pobre-ganha-herança-e-descobre-que-a-vida-é-muito-mais-do-que-dinheiro (mesmo mote da franquia Até que a Sorte nos Separe, dos mesmos realizadores, só para ficar em um exemplo recente), Denílson (Sant´anna) é um camelô que descobre que a mãe, emprega doméstica, teve um caso com o patrão, Damião (Stepan Nercessian), um (futuro) milionário dono de uma cadeia de lojas de eletrodomésticos. É mais do mesmo – texto sobre o qual Rodrigo também tem responsabilidade, já que é autor do roteiro, ao lado de Paulo Cursino (parceiro frequente de Santucci) e L.G. Bayão, a partir de um argumento do próprio Santucci.

Na cena de abertura, o empresário assiste ao programa do Chacrinha, ao mesmo tempo em que… investe sexualmente para cima da esposa, que se esquiva de seus “carinhos”. Quando a empregada (Sant’anna, claro) entra em cena perguntando se o patrão não gostaria de comer o “escondidinho” dela, os dois começam a trocar olhares, fazendo movimentos circulares com as línguas numa demonstração “excessiva” de “sedução”.

Há uma lente de aumento no episódio, claro, que é para ser engraçado. Mas a verdade é que o diálogo é chulo e a representação, grosseira. Um bom resumo do que vem por aí.

Corta para tinta anos depois. Na leitura do testamento, Damião deixa um vídeo gravado como Cacrinha (?!) para fazer a revelação da existência do tal herdeiro torto. As ex-mulheres Gogóia (Guida Vianna) – e o filho Luiz Otávio (Victor Leal) – e Narcisa (uma ex-chacrete vivida por Cláudia Alencar), claro, ficam estarrecidas com a notícia e vão fazer de tudo para afastar Denílson da herança. A única com um bom coração é Sofie (Carol Castro) que, na receitinha do texto, encarna a mocinha, namorada do aspirante a cineasta experimental Olavinho Salles (Fábio Rabin).

Mesmo sob a ótica do exagero a que se propõe a produção, muitas situações são incoerentes até para o padrão de humor adotado. Além do vídeo de Nercessian vestido de Chacrinha para a leitura do testamento, por exemplo, há um diálogo enorme entre Denílson e a bem-nascida Sofie sobre o quanto eles gostam de peidar e arrotar.

Ficasse “apenas” no aspecto… descortês, vá lá. Mas Um Suburbano Sortudo é preconceituoso até o último frame. Contra as mulheres, os homossexuais, contra o cinema, os ricos e até os suburbanos, que têm que ser grosseiros para serem ouvidos, de acordo com o filme – curiosamente o longa-metragem mais bem-acabado tecnicamente entre as comédias dirigidas por Santucci.

Lá pelas tantas, Denílson faz troça do cineasta Olavinho Salles, vencedor de um prêmio em um festival europeu com o filme “Urubus ao Redor”, sobre dois homossexuais que se apaixonam em um lixão. O que faz sucesso mesmo, segundo o camelô, é “Xavasca Guerreira contra a Trolha Maldita”, filme que ele vende em sua banca. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra deveria ser a lição.

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