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No

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No é um filme chileno lançado no ano de 2012, dirigido por Pablo Larraín, escrito por Pedro Peirano e baseado na peça inédita El Plebiscito de Antonio Skármeta. O filme é estrelado por Gael García Bernal. O longa foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro no Oscar 2013.

 

No narra a história de René Saavedra (Gael García Bernal), publicitário acostumado a criar inúmeras peças para a agência que trabalha. No momento em que o povo chileno é chamado para votar em um referendo pela permanência do General Augusto Pinochet no poder, e seu chefe está trabalhando na campanha do “Sim”, René recebe o convite para integrar a equipe do “Não”. Sua missão: criar filmes e materiais promocionais que convençam a maioria do povo chileno a votar “No” “, interrompendo dessa forma a ditadura no país. Para dar início ao processo revolucionário é chamado o Comandante Cadera, um famoso membro do Exército que, pela bravura demonstrada em combate e por ser um extremoso pai de família, fica responsável por ser o homem do leme conduzindo o país rumo à Independência e à Liberdade.

 

Por mais que cada ditadura possua sua particularidade, certas características são universais: repressão, terror, medo, violência, desaparecimento… O Chile sob o comando de Augusto Pinochet sofreu todas estas violências, retratadas de modo devastador no imperdível Desaparecido – Um Grande Mistério (1982). No, novo filme do diretor Pablo Larrain, retorna ao tema sob outro enfoque. Ao invés de analisar o governo Pinochet, vai direto a um evento raro, talvez único, quando um ditador aceita a realização de um plebiscito popular para decidir sobre sua continuidade no poder. Diante de uma oportunidade desta, como se portar? Aproveitar os 15 minutos de propaganda livre na TV nacional para denunciar as atrocidades cometidas? Manter-se fiel ao espírito socialista e pregar seus ideais para a população? Estas seriam as opções óbvias, mas nenhuma delas foi escolhida – ao menos não ao pé da letra.

 

“Vocês querem ganhar este plebiscito?” Foi esta simples pergunta, sedutora, que René Saavedra (Gael García Bernal, contido) fez aos responsáveis pela campanha do não, após assistir uma propaganda que seguia todos os preceitos antigos descritos no parágrafo acima. Publicitário tarimbado, Saavedra sabia de antemão que uma campanha neste estilo jamais conquistaria corações e mentes dos chilenos, ao menos não a ponto de derrubar Pinochet. Sua proposta era ousada: usar os truques e ideais publicitários em nome da concretização de um sonho, mesmo que para tanto precisasse passar por cima de preceitos arraigados dos envolvidos e, por vezes, até mesmo deixá-los ofendidos. Como? Amenizando a campanha, de forma a torná-la alegre e cativante.

A saga da campanha pelo não no plebiscito chileno é tão insólita e corajosa que chega a ser difícil acreditar que seja verdadeira. A presença de propagandas reais, usadas na época, alimenta ainda mais esta sensação. Se por um lado são o retrato claro da genialidade empregada, por outro lembram sempre do risco assumido ao levar a campanha neste sentido. Sua popularização acaba minimizando uma questão primordial, motivo para muita discussão, que é o uso de meios publicitários para impulsionar sonhos ideológicos que, por si só, não teriam tal força. Impossível não fazer uma analogia rápida com a política brasileira recente e lembrar da nova roupagem ganha por Lula, através de uma campanha de marketing cuidadosamente planejada, para que pudesse enfim ser eleito presidente. Guardadas as devidas proporções – por mais que o PSDB sofra resistência, está muito longe de ser parecido com uma ditadura -, em ambos os casos a publicidade vendeu um produto. Intangível, que mobiliza e alimenta a esperança de milhões de pessoas, mas ainda assim um produto.

Além das questões ideológicas que levanta e do forte apelo patriota – é difícil não se emocionar com o desfecho do filme, seja lá de qual nacionalidade você for -, No conta ainda com mais uma ousadia, esta de caráter estético. O diretor Pablo Larraín optou por usar uma imagem suja, com muita câmera na mão e a luz estourando a todo instante, com o objetivo de causar incômodo no espectador. A ideia era fazer um longa com as mesmas condições estéticas que os próprios filmes e comerciais chilenos tinham na época, trazendo uma veracidade visual com a época retratada. A ousadia vem não desta opção – Argo, por exemplo, adotou a mesma medida -, mas pela manutenção do lado sujo da imagem, bem longe da qualidade visual vinda dos filmes hollywoodianos. Algo que pode incomodar os mais sensíveis.

No é um grande filme, que acompanha um momento histórico do Chile sabendo dosar a importância do ocorrido sem deixar de lado um idealismo emocionante. Uma história ainda atual, apesar de se passar no final da década de 1980, pelo impacto sempre presente da publicidade nas eleições recentes. Um filme para ver, aprender e refletir, sobre a história e, mais importante ainda, a presença da publicidade nas nossas vidas.

Por que assistir o filme chileno “No”?

Um dos melhores filmes de 2012 é, sem dúvida, o chileno “No” (Não). Aclamado no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, a obra do diretor Pablo Larraín conta — inserindo alguns personagens fictícios na realidade da época — como foi a campanha do plebiscito que tirou do poder o ditador Augusto Pinochet, em 1988.

Para explicar melhor, vamos falar rapidamente do período da Ditadura chilena para poder entender o contexto do filme.

A situação política e social chilena:
O Chile, assim como todos os países da América Latina na segunda metade do século XX, estava passando por um período político turbulento. Políticos de esquerda tinham voz ativa, disputavam eleições e chegavam até a ganhá-las.

Mas independente da orientação política, as decisões do Poder Executivo que beneficiavam o povo eram tratadas como atos “de esquerda”. E quem era de esquerda, “comunista”, corria sério risco de ser considerado um “revolucionário perigoso”.

E revolução naquela época lembrava URSS e Cuba, o que não era lá muito bom se você vivia em um país sul-americano, quintal de você-sabe-qual-nação-do-norte…

No Chile as maiores agitações políticas começaram com a chegada ao poder de Gabriel Videla, ainda em 1946. Videla foi plenamente apoiado por setores liberais e de esquerda mas, durante o mandato, alinhou sua política com a direita, mais conservadora e totalmente contrária a mudanças sociais profundas. Os apoiadores de Videla ficaram desapontados, pois mesmo com uma relativa prosperidade econômica, a maioria do povo chileno continuava passando por privações.

E assim seguiu a política chilena até 1970, com representantes eleitos que não se preocupavam muito em promover melhorias e mudanças sociais profundas.

Em 70 a esquerda conseguiu eleger o médico Salvador Allende, um dos fundadores do Partido Socialista Chileno, de orientação claramente marxista. Ato quase contínuo à posse, Allende estatizou todas as empresas estrangeiras que operavam em solo chileno. As minas de cobre, maior riqueza do país, estavam todas nas mãos de companhias estrangeiras e passaram para o controle do estado. Óbvio que alguém ia gritar.

Os investimento externos diminuíram de forma abrupta, e o Chile mergulhou em uma crise que não era lá muito interessante para um político que precisava mudar para melhor justamente as condições sociais da população. Allende culpou os EUA de provocarem a crise e a direita chilena de influenciar os protestos que tomaram o país.

Ele não estava errado em culpar estes atores, pois já foi comprovado que os EUA financiaram vergonhosamente o caos no Chile. Mas com a taxa de desemprego altíssima, o sufocamento econômico do país e as sucessivas greves que inclusive atrapalharam a agricultura chilena em 1972–73, até os militantes e simpatizantes da esquerda não tinham muito o que fazer, não tinham muita opção na hora de pedir apoio popular para a manutenção de Allende no poder.

O “estrangulamento financeiro” promovido pelos EUA — que, diga-se de passagem, não deu certo em Cuba porque a URSS passou a comprar boa parte da produção cubana e bancou a economia da ilha de Fidel — acabou funcionando no Chile, e em 11 de setembro de 1973 as Forças Armadas, comandadas pelo General Augusto Pinochet, tomaram o poder, invadindo o Palácio de La Moneda.

Conta-se que Allende, acuado, recusou-se a deixar a presidência e suicidou-se. Muitos chilenos acreditavam na versão do assassinato de Allende, mas a autópsia dos restos mortais do ex-presidente, realizada décadas depois, confirmou à História a versão do suicídio.

O golpe de 73 e os meandros da época em que o Chile viveu sob a ditadura de Pinochet serão assunto de outro texto, mas para que nós possamos entender o contexto histórico do filme “No”, saibam que no Chile a ditadura foi tão ou mais pesada que a brasileira! Muitas pessoas foram presas por apenas pensar de forma diferente da ideologia dos que estavam no poder, milhares desapareceram e morreram nas mãos do governo, a censura atuava com força e as liberdades individuais também foram diminuídas.

E então… como é o filme?

O cenário que encontramos na película, que se passa no ano de 1988, é o seguinte: Pinochet estava sofrendo pressão internacional para legitimar seu governo — afinal de contas em 1973 ele não foi eleito pelo povo — e convocou um plebiscito junto à população.

A opção “sim” mantinha o ditador no poder, enquanto o “não” obrigava-o a convocar eleições diretas para presidente no ano seguinte.

O governo não acreditava na derrota, enquanto a esquerda não acreditavam na vitória. Mas ela queria aproveitar os 15 minutos diários que teriam durante um mês em todas as rádios e TVs chilenas pra expor as mazelas causadas pela repressão.

No meio disto tudo está o personagem René Saavedra, vivido pelo ator Gael García Bernal, um publicitário, filho de exilados, que viveu boa parte da vida no México e acreditava que a campanha do “não” deveria funcionar como algo alegre, e não como uma mensagem pesada contra a repressão.

Ele ouviu críticas de pessoas que sofreram na mão da repressão e perderam parentes e amigos, mas conseguiu até certo ponto trabalhar bem com a parte dramática das vítimas da ditadura. Desde o dia em que aceitou o convite para ajudar na campanha, Saavedra pensou em vencer o plebiscito, mesmo com toda a expectativa de sofrer com uma possível repressão do governo.

O resultado final do plebiscito é conhecido por qualquer pessoa que sabe um pouco da História recente de nossos hermanos chilenos, mas o importante na película é entender como uma mensagem, transmitida do jeito certo, pode tirar as pessoas do “marasmo político”. Os chilenos viviam acuados, amedrontados pela ditadura. Muitos protestavam contra Pinochet, queriam o fim do governo ditatorial, mas a pesada repressão tirava a vontade de muitas outras pessoas de ir às ruas pedir o fim da ditadura.

Saavedra, o grupo de profissionais da publicidade e os coordenadores políticos da campanha que trabalharam a favor do “não” conseguiram mostrar que o povo chileno podia acabar com a ditadura de Pinochet usando as urnas. A opinião pública internacional estava de olho no plebiscito, o que passava uma certa segurança, mas não garantia o resultado final, caso fosse desfavorável a Pinochet, pois ele tinha as Forças Armadas do seu lado.

A equipe do “não” deveria inclusive, durante a campanha, mostrar que grande parte da população não queria a dita

dura, o que ajudaria na percepção do resultado final contra possíveis manipulações. Por isso a violência do Estado deveria ficar meio “de lado” na campanha, pois o povo tinha que perder o medo de expressar sua opinião, deveria ir para as ruas e apoiar o “não”.

A peça que inspirou o filme, um monólogo chamado “El plebiscito”, de Antonio Skármeta, nunca subiu aos palcos. Mas o filme conseguiu, com maestria, passar a mensagem. Outro trunfo do diretor Pablo Larraín foi fazer o filme como se ele fosse uma espécie de documentário filmado na época do plebiscito. Usando câmeras U-matic 3:4, Larraín reproduz a atmosfera da década de 1980 de uma forma que quando nós vemos os vídeos originais das duas campanhas, nós não sentimos qualquer diferença entre as filmagens da época e as que foram feitas recentemente. Talvez, se tivesse usado os equipamentos digitais que existem hoje, ele não conseguiria o mesmo resultado.

 

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