• +(21) 99639-3362
  • contato@guilhermekroll.com

Filmes – Netflix

O Fotógrafo de Mauthausen (Netflix)

Francesc Boix (Mario Casas) é um ex-soldado que lutou na Guerra Civil da Espanha preso no campo de concentração de Mauthausen durante a Segunda Guerra Mundial. Tentando sobreviver, ele se torna o fotógrafo do diretor do campo. Quando ele descobre que o Terceiro Reich perdeu para o exército soviético na batalha de Stalingrado, Boix torna sua missão salvar os registros dos horrores realizados no local.

GRAF4847. TERRASSA (BARCELONA), 23/11/2017.- El actor Mario Casas posa durante un receso del rodaje de la nueva película de Mar Targarona “El fotógrafo de Mauthausen”, en la que Casas se pone en la piel de Francesc Boix, un preso español en un campo de concentración nazi, “un auténtico héroe”, han coincidido en señalar hoy la cineasta y el intérprete. EFE/Alejandro García

O Menino Que Descobriu o Vento (Netflix)

Sempre esforçando-se para adquirir conhecimentos cada vez mais diversificados, um jovem de Malawi se cansa de assistir todos os colegas de seu vilarejo passando por dificuldades e começa a desenvolver uma inovadora turbina de vento.

Existe algo fundamentalmente contraditório no costume de identificar casos excepcionais dentro da sociedade e utilizá-los como modelos que qualquer um poderia seguir. William Kamkwamba (Maxwell Simba) foi um garoto inteligentíssimo, autodidata, que descobriu um método de criar energia eólica no meio das terras secas do Malawi, de modo a garantir a irrigação das colheitas e a sobrevivência de uma população faminta. O diretor Chiwetel Ejiofor faz deste caso real um exemplo sobre a importância dos estudos, da ecologia, de políticas humanitárias e do senso de comunidade.

Em outras palavras, o garoto é instrumentalizado para caber dentro do formato narrativo e moral de uma fábula. Ele jamais representa a si mesmo, e sim algo muito maior: a importância das escolas, da união, da luta contra as opressões, do respeito ao próximo etc. Por esta razão, a história se transforma num grande tratado de valores morais que o diretor acredita serem necessários a todas as pessoas. “Nós temos que garantir que as pessoas saibam o que está acontecendo aqui”, afirma a certa altura Trywell Kamkwamba (Ejiofor), claro alter-ego do cineasta. O artista também acredita na necessidade da informação, tratando de explicar, aos olhos europeus e americanos, as consequências da miséria e da corrupção nos países africanos.

The Boy Who Harnessed the Wind funciona igualmente como cautionary tale, ou seja, uma fábula de precaução para avisar ao espectador o que acontecerá caso não coloquemos em prática os valores enunciados acima. Os símbolos são claros: o céu preto indica a chegada da chuva, mas também a tragédia na vida da família; enquanto o sol é apresentado numa fusão com os olhos do garoto, afinal, ele representa a esperança para o futuro. Não por acaso, “Vá para a escola” é uma das últimas frases pronunciadas no filme, enquanto uma prece religiosa é interrompida pela garota que prefere acreditar nos conhecimentos científicos do irmão do que esperar pelo atendimento divino.

 

Isso não impede que o drama carregue o olhar salvacionista que tanto incomoda em produções sobre catástrofes africanas. Assim como Hotel Ruanda e Rainha de Katwe, temos uma narrativa que observa os personagens com carinho misturado a paternalismo. A descoberta do método de irrigação é mérito do garoto, mas os letreiros finais tratam de avisar que ele saiu do país e foi completar a sua educação nos Estados Unidos, como pareceria lógico ao pensamento europeu/americano. Mesmo assim, o resultado é uma produção polida, com fotografia bem adequada à iluminação das peles negras – elemento ainda em falta na maioria dos blockbusters-, bom trabalho de direção de arte e preparação muito satisfatória do elenco.

 

Ejiofor ainda encontra espaço para destacar o folclore, as diferentes línguas do país e os costumes típicos, enquanto retrata a si mesmo como a geração bondosa, porém tolhida pela dificuldade de acesso à informação. Este é claramente um filme político, ainda que a política seja compreendida menos como um conjunto de práticas sociais – a subtrama do governador corrupto fica em segundo plano – do que uma medida de esforço individual. Ainda se acredita que, mediante o esforço necessário, qualquer um possa se tornar um engenheiro promissor como o personagem principal. Ingênuo ou não, este raciocínio é apresentado com uma paixão e uma honestidade inegáveis: o diretor impregna cada cena de humanismo e empatia, além de ressaltar a importância das mulheres dentro das transformações sociais.

The Boy Who Harnessed the Wind e tantas outras produções semelhantes podem ajudar a pensar sobre o cinema como veículo de ensinamento. A questão é menos óbvia do que parece: a arte tem como vocação ensinar as pessoas? Transmitir valores, ensinamentos? A arte pode ser um objeto utilitário? Ou sua função estaria no despertar de sentidos, sentimentos, capazes de facilitar/induzir o aprendizado? Ejiofor acredita numa transmissão direta, simples, com seu interlocutor: ele lhe diz, com clareza, o que está acontecendo no Malawi, o que faltaria ao país e como consegui-lo.

 

Em outras palavras, oferece o problema e a solução, como um professor generoso. Ao espectador não cabe fazer muito esforço: o filme o envolve, o faz rir e chorar, entregando as informações e a recompensa prometida. No entanto, manter o espectador em posição de passividade pode ser uma estratégia contraprodutiva quando se espera um aprendizado, algo que exige, por definição, uma postura ativa. É possível que o projeto, com suas belas imagens e boas intenções, funcione melhor como veículo de sensibilização do que de reflexão.

 

Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

The Boy Who Harnessed the Wind

Lady Gaga “Five Foot Two” (Netflix)

O filme é, supostamente, um “mergulho profundo” na intimidade dessa figura “genial”, “misteriosa” e “fascinante”, mas, sendo um veículo de publicidade feito para vender a artista, não demonstra um pingo de senso crítico ou imparcialidade. Gaga passa o filme todo sendo paparicada e elogiada por um batalhão de puxa-sacos. A diva é mostrada como uma alma boa e calorosa – ela dá comida para cachorrinhos! Chora no batizado de um bebê! Debulha-se em lágrimas ao receber flores do ex-noivo! – tudo na frente das câmeras, claro, para máximo impacto melodramático.

Já vimos o documentário da Lady Gaga na Netflix, o dramático e vulnerável “Five Foot Two”

Sem maquiagem, descabelada e usando um shortinho, Lady Gaga aparece dando carinho e comida pros cachorros, depois dançando na cozinha com a família e se escondendo atrás da geladeira, muito incomodada com a invasão da câmera enquanto tenta aceitar a ideia de ser filmada. Não é novidade alguma para uma das maiores popstars dos últimos 10 anos ter uma equipe de filmagem a perseguindo, mas é que agora a estão mostrando como ela é, bem à vontade, sem produção, sem figurino, vestindo roupa de ficar em casa e rodeada de pessoas que a amam. Dá até pra ver Gaga ficando tímida (que choque!!!).

Assim começa “Gaga: Five Foot Two”, documentário dirigido por Chris Moukarbel que tem estreia marcada na Netflix para o dia 22 de setembro. O filme mostra esse registro sincero de uma Lady Gaga sem máscaras, muito direta e despida de glamour. Como o trabalho mais recente da cantora, o disco “Joanne”, Gaga está tranquilinha e dibouinha.

Se você está esperando por algo grandioso, espetaculoso, bafônico, um documentário que normalmente seria entregue por uma diva pop poderosa, pode esquecer. Não tem muito lacre.

Tem Gaga chorando, Gaga ansiosa, Gaga insegura, Gaga abraçando Mark Ronson e chorando, chorando com a avó, chorando com as dores que sente, chorando ao conhecer uma fã… É intenso.

Durante a 1 hora e 40 minutos do filme, Gaga aparece extremamente vulnerável, emotiva, mas também aceitando a alegria de agora finalmente conseguir lidar bem com sua imagem. Hoje, ela não precisa mais de telefone ou de lagosta na cabeça, ou da maquiagem exagerada ou da roupa de carne, que a ajudava a esconder quem ela era.

“Eu nunca me senti confortável o suficiente pra cantar e ser desse jeito que sou agora, de colocar meu cabelo pra trás“, diz a cantora num dos intervalos das gravações do disco, usando roupa preta, óculos, sem maquiagem e com um rabo de cavalo.

“Nunca me senti bonita ou inteligente o suficiente ou uma grande artista. Essa é a parte boa do agora. Eu não me sentia bem assim, mas agora sinto. De todas as coisas que eu mereço, essa é a melhor coisa, saber que eu valho alguma coisa e posso ficar tranquila.“

Gaga fazendo topless…
Tranquila meeeeesmo! Numa das minhas cenas favoritas do documentário, Gaga está numa reunião com três assessores: duas mulheres e um homem. À beira de sua piscina, na sua própria casa e curtindo um sol, Gaga aparece com o cachorro no colo e apenas vestindo a parte de baixo do biquíni. Com os seios à mostra, ela conversa com a empresária britânica dizendo estar cansada de todo mundo a ver sempre glamurosa, que viram isso acontecer por 10 anos. Gaga tá se despindo (nos dois sentidos) nesse filme.

Mesmo sem os vestidos, as caras e bocas e as apresentações apoteóticas que fizeram Gaga famosa no mundo inteiro, a gente nota claramente no documentário o poder da diva pop, dona de sua carreira, nas decisões que ela toma, sem medo algum, enquanto grava o álbum “Joanne” junto com Mark Ronson (e tem até algumas cenas com Florence!). A mesma liderança é notada nas filmagens do clipe de “Perfect Illusion” e da série “American Horror Story: Roanoke”.

Gaga pode parecer insegura, dramática e vulnerável na maioria das cenas, mas temos alguns bons momentos de alegria. É bizarro, mas a cantora aparece feliz e se divertindo quando está no domingo do Super Bowl, onde iria se apresentar para a maior audiência de TV dos EUA.

O que poderia ser um momento apreensivo, tenso e de concentração para a maioria dos artistas, não é nada disso para Gaga. Ela está segura de seu talento, louca pra mostrar o que sabe fazer e toda animada, zoando com todo mundo nos bastidores, recebendo Donatella Versace e fazendo piada com o jogo de futebol americano, citando o acidente com o seio de Janet Jackson e muito mais.

Madonna é citada duas vezes no documentário
Todo mundo aqui já ficou sabendo do que a Gaga falou da Madonna no filme, certo? Disse que era melhor a rainha do pop ter falado na cara dela que a achava um lixo em vez de dizer aquele “reductive” na televisão. Essa cena que já é famosa nem demora muito para acontecer. Rola nos primeiros nove minutos do documentário. Gaga diz que é italiana e que por isso prefere resolver as coisas assim, na lata, dizendo pra pessoa. E que por mais que ela respeite Madonna como performer, ela vacilou. “Podia ter me jogado na parede, me beijado e dito que sou um lixo“, diz Gaga.

Passado alguns minutos de documentário, Madonna é lembrada novamente por Gaga. Numa cena muuuuuuito tocante (fãs irão chorar), a cantora mostra para a mãe de Joanne, sua avó, a faixa que ela fez em homenagem à falecida tia, filha de sua avó paterna. Bem emocionante.

Mas aí, antes disso rolar, eles ficam revirando fotos da artista quando era adolescente que a avó tem guardadas na casa. Numa das imagens, Gaga aparece sorrindo com um diastema gigante nos dois dentes da frente e o pai conta que isso é a prova de que a filha usou aparelhos dentários. “Sim, se eu tivesse mantido esse buraco, ia ter ainda mais problemas com a Madonna“, responde Gaga.

Algumas partes marcantes:
As dores da Gaga. Sim, isso acontece em inúmeras cenas. Dói na gente também ver a dor que ela sente durante essas cenas. No Twitter, dias atrás, a cantora revelou que sofre de fibromialgia, síndrome que causa dores crônicas. E isso é visto em inúmeras vezes no documentário. O problema mais agravante acontece no dia do aniversário de Tony Bennett. Gaga iria se apresentar na festa, mas, minutos antes, aparece em seu apartamento em Nova York deitada no sofá com assistentes ao redor e um cachorrinho preocupadíssimo com ela. Ela está chorando de dor, sem saber o que fazer até receber umas massagens loucas e torções pesadas de uma massoterapeuta e ficar bem para sair.

Uma cena favorita minha é… quando Gaga desce de shortinho jeans, camiseta e sem maquiagem para encontrar os fãs na porta do hotel. Nesse momento, o documentário faz uma brincadeira e começa a mostrar todos os momentos anteriores em que isso aconteceu, numa época em que Gaga, anos atrás, usava roupas absurdas e loucas. É uma edição perfeita, mostrando vários vídeos da cantora encontrando fãs em portas de hotéis usando os looks mais incríveis junto com a cena de agora, exibindo uma Gaga “limpa” e normalzinha. Tem até o famoso “yas, Gagaaaa” nessa compilação.

O sangue no VMA… Gaga também fala sobre o que as pessoas esperam dela na música pop. “A metodologia por trás do que eu faço é que quando eles querem que eu seja sexy, quando querem que eu seja pop, eu coloco uma porra duma virada nisso para eu sentir que ainda tinha o controle da coisa. Se eu tenho que ser sexy no VMA cantando sobre os paparazzi, eu vou fazer isso enquanto eu fico sangrando no palco para lembrar a todos o que a fama fez com a Marilyn Monroe, a Norma Jeane original. Ou com a Anna Nicole Smith. Ou com…“, Gaga faz uma pausa, olha para o amigo ao lado, lamenta com a cabeça e diz: “Você sabe quem…“, dando a entender que seria ela.

Na primeira reunião do Super Bowl… todo mundo está na casa da Gaga, incluindo o diretor do show do intervalo, o Hamish Hamilton, que já dirigiu milhões de VMAs e premiações famosas do entretenimento. Gaga diz que, antes de mais nada, prefere surpreender e fazer o oposto do que todo mundo acha que ela vai fazer. Ela avisa que não quer aparecer chegando num trono (oi, Madonna, de novo!), nem com milhões de homens sem camisa (ainda Madonna?), nem com um vestido de carne ou unicórnios. “E no final da apresentação eu quero fazer algo chocante, que vai chocar todo mundo“.

A gravação de “A-YO” é ótima. Durante a criação de uma das melhores músicas do disco a gente vê Gaga se jogando com a batida da música no estúdio com o Mark Ronson.

“American Horror Story”: Nós vemos também cenas de Gaga gravando a sexta temporada de “AHS”, colocando aquela maquiagem e cabelo assustadores e dando um esporro na equipe por conta de um bafo que rolou lá.

Preparem-se para um ao vivo de “Bad Romance” que ela faz ao piano. Gaga transforma a música num jazz maravilhoso. A qualidade do som está perfeita e ela está linda de preto.

Dúvida sobre os fãs: “Você acha que meus fãs mais antigos vão ficar desapontados por eu não estar toda arrumada?“, pergunta Gaga no set de gravações de “Perfect Illusion” com o figurino do clipe.

A cena na Walmart é incrível! Gaga procura pelo “Joanne” nas prateleiras e não acha. Ela procura um vendedor, ele não a reconhece, diz que não sabe onde está o CD; ela manda chamar o gerente e ele também não a reconhece (é a Gaga versão limpinha, gente!). Não vou contar mais senão estraga, mas ela faz mais coisas engraçadíssimas lá dentro.

Mas é bom? Por que chama “Five Foot Two”?
O documentário é um prato cheio para os fãs conhecerem ainda mais a cantora, ficarem mais próximos dela, entenderem o processo de criação, rirem com ela e chorarem com ela (acredite em mim, isso vai acontecer). Mas talvez o documentário possa desagradar aqueles que não são tão fãs e não se interessam tanto assim pelos detalhes e estejam mais em busca das músicas famosas, apresentações grandiosas e Gaga espalhafatosa. Não vão encontrar. Pra isso você tem que ir na turnê dela, queridinho. Ou ver a mãe-monstra no Rock in Rio.

Mesmo tendo trechos de apresentações ali e aqui, “Gaga: Five Foot Two” procura mesmo é vender é a intimidade, mostrando a cantora despida (em todos os sentidos).

Aliás, Gaga não explica em nenhum momento o motivo do filme se chamar “Five Foot Two” (além do fato de ser a altura dela, 1,57m, no sistema métrico americano), mas a intenção é clara se você conhece a música. Esse nome é de uma canção famosa dos anos 20, um jazz que aparece bem sutilmente no documentário quando ela vai no batizado da filha de um dos membros de sua banda de jazz. Na festa, perambulando entre as mesas de convidados, o amigo de Gaga toca essa música no palco. Quer saber como é a letra? Ela conta a história de um homem procurando a garota da vida dele e avisando todo mundo que se ela aparecer coberta de casacos de peles e jóias, certamente essas coisas não são dela, dando a entender que isso não faz ela ser o que ela realmente é.

Tá explicado?

Bruce Springsteen on Broadway – Netflix

Bruce Springsteen desfila hits e histórias em trailer de especial da Netflix

Bruce Springsteen mistura hits de sua carreira, como “Born to Run”, com histórias íntimas sobre sua família e a origem de suas letras no primeiro trailer de “Springsteen on Broadway”, especial da Netflix inspirado em shows do artista no famoso distrito teatral nova-iorquino. “Quando eu era um jovem garoto, procurando por uma voz para contar as minhas histórias, eu escolhi a voz do meu pai”, diz Sprinsgteen no começo do vídeo. “Meu pai foi o meu herói, e o meu maior inimigo”

“Minha mãe era uma história bem diferente. Gentileza, otimismo, civilidade. Ela me fez entender, pela primeira vez, como é bom sentir orgulho de alguém que você ama”, conta em outro trecho. Springsteen ainda canta ao lado da esposa, Patti Scialfa, e se derrete em elogios para ela. “Ela é uma ótima compositora, uma das vozes mais incríveis que eu já ouvi. Ela é inteligente, durona… Mas frágil”, brinca. Terminando em uma nota bem-humorada, o músico fala sobre sua “relação de amor e ódio” com a cidade natal, Long Branch. “Eu sou o sr. ‘Born to Run’ [‘Nascido para Correr’, em tradução livre], mas hoje moro há dez minutos da minha cidade natal”, comenta.

Roma (Netflix)

Roma é, para muitos, o filme do ano.

O monumental relato sobre o México dos anos 1970 realizado por Alfonso Cuarón em seu retorno à direção após ganhar o Oscar de melhor diretor com Gravidade (2013) conquistou público e crítica ao redor do mundo.

A história de Cleo, uma empregada doméstica que trabalha para uma família de classe média no turbulento Distrito Federal do México no início do governo de Luis Echeverría, ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e já foi eleita o melhor longa de 2018 por críticos em Los Angeles, Nova York, Chicago e São Francisco.

Inspirado na infância de Cuarón, o filme é elogiado como uma metáfora do país e de sua história, de seu passado e de seu presente.

Também tem sido visto como um relato cru e emotivo sobre as realidades, alegrias, tristezas e do cotidiano oculto por trás da vida doméstica e um testemunho desolador – e, ao mesmo tempo, esperançoso – sobre as desigualdades sociais e raciais não apenas do México, mas de toda a América Latina.

Entenda a seguir, em cinco perguntas, o filme que estreou no dia 14 na Netflix e está em cartaz no Rio de Janeiro e em São Paulo até o dia 26 de dezembro.

1 – Por que se chama ‘Roma’?
O título do filme é o nome do bairro onde a trama se desenrola, Colonia Roma, uma zona em que a classe alta mexicana se estabeleceu na primeira década do século 20 e onde existem até hoje suntuosas mansões e palacetes de inspiração europeia.

Desde o terremoto de 1985, a região passou por várias transformações arquitetônicas e demográficas, ainda que atualmente continue a ser um bairro de classe média e uma das zonas residenciais mais emblemáticas da cidade.

Mas o motivo pelo qual o filme se passa ali tem a ver com a intenção do diretor de recriar sua infância: Cuarón cresceu em uma casa na rua Tepeji, em Roma, que aparece em uma das cenas do longa.

O luxuoso bairro serve também como um símbolo para contrastar com as diferenças sociais de outros ambientes pelos quais passam os personagens, em especial Cleo, a protagonista.

Diferentemente de seus patrões, ela e outra amiga, que também trabalha como empregada doméstica na mesma casa, dormem em um quarto minúsculo, enquanto os namorados de ambas vivem em um bairro muito pobre e distante dali.

2 – Quem é Libo?
Cuarón dedica o filme a “Libo”, que é como ele e sua família chamam Liboria Rodríguez, uma mulher de origem indígena que começou a trabalhar com eles quando o diretor tinha só 9 meses e cuja história de vida serve de base para a história.

Rodríguez, que veio da aldeia de Tepelmeme no Estado de Oaxaca, cuidou desde então das crianças da família de Cuarón, como muitas empregadas domésticas que tiveram um papel central na vida dos filhos de muitas famílias da América Latina.

Segundo o diretor, à medida que ele cresceu, se deu conta de que Libo também era uma pessoa que tinha necessidades, conflitos e uma vida própria, e não era alguém que só lavava sua roupa ou preparava sua comida.

Foi nela e em seu papel na família que ele se inspirou para escrever o roteiro, de cuja cenas os atores só tomavam conhecimento no mesmo dia da filmagem.

3 – Por que se vê tantos aviões no filme?
Em vez de usar estúdios de filmagens, Cuarón decidiu rodar seu longa em uma casa em Roma, que foi reconfigurada meticulosamente para que se parecesse com o local onde cresceu.

Roma fica próximo de um dos corredores aéreos pelo qual passam centenas de aviões que cruzam diariamente os céus da Cidade do México para aterrissar em seu aeroporto internacional, por isso, são uma presença constante no céu do bairro… e de quase toda a cidade.

Por isso, os aviões não estão apenas na abertura e no encerremento do longa, mas seu som permeia todo o desenrolar da trama.

Mas isso é apenas uma parte da explicação. Há também um fato autobiográfico: Cuarón era fascinado por aviões e sonhava em ser piloto quando era pequeno (o ator que interpreta o diretor quando criança conta isso a sua babá).

Além disso, há uma conotação simbólica. Cuarón contou que as aeronaves cruzando o céu do México transmitem a ideia de que as situações que os personagens atravessavam são transitórias e que há um universo que vai além de seus contextos pessoais.

4 – Como o próprio cinema se torna um outro símbolo do filme?
As idas ao cinema não são apenas uma válvula de escape de Cleo para suas tarefas domésticas, mas também para as crianças de que ela cuida.

Roma utiliza um recurso narrativo conhecido como “metarrelato”, ou “cinema dentro do cinema”, em que produções cinematográficas anteriores são homenageadas pelo autor – inclusive, algumas próprias.

Em uma das cenas, as crianças vão com a babá ver Sem Rumo no Espaço (1969), um dos filmes favoritos do diretor quando criança e que lhe serviu de inspiração para Gravidade.

Há uma cena de parto similar à que ocorre no filme de Cuarón Filhos da Esperança (2006), e, como em E Sua Mãe Também (2001), dirigido por ele, a mãe conta aos filhos em um bar ao ar livre próximo da praia que seu pai os abandonou.

Nos créditos de Roma, aparece o mantra “Shantih Shantih Shantih” (Paz, paz, paz), que também aparece em Filhos da Esperança.

5 – O que foi o massacre de Corpus Christi?
Um dos elementos que a crítica mais tem aclamado é a cuidadosa recriação de época, não apenas pelos cenários, vestuários e programas de televisão, mas pela forma tangencial com que apresenta contextos sociais do México nos anos 1970.

Uma das cenas mais dramáticas mostra a matança de estudantes conhecida como o massacre de Corpus Christi ou “Halconazo”, que ocorreu em 10 de junho de 1971 e que ainda é hoje um dos eventos mais tristes da história do país.

O incidente começou como um protesto estudantil pela libertação de presos políticos e por mais investimentos em educação, e terminou como um banho de sangue quando o governo enviou soldados treinados pela CIA, de um grupo paramilitar financiado pelo Estado e conhecido como “Los Halcones”, para reprimi-los.

De acordo com versões de alguns sobreviventes, a princípio, os paramilitares usaram bastões e varas de bambu empregados na arte marcial japonesa kendo, como o usado por um dos personagens do filme em seu treinamento, mas, depois, foram usadas armas de fogo.

O fato do namorado de Cleo praticar o kendo em um local distante no Estado do México e se referir aos treinamentos também deixa em aberto uma possível referência aos grupos paramilitares.

O massacre de Corpus Christi deixou 120 estudantes mortos, de acordo com registros oficiais, mas acredita-se que o número de vítimas possa ter sido ainda maior.

O acontecimento é retratado de forma hiper-realista no filme em uma das suas cenas mais comoventes, na qual novamente as desigualdades sociais marcam o desenrolar da trama.

Mandatory Credit: Photo by Chelsea Lauren/Deadline/REX/Shutterstock (9959620mt)
Marina de Tavira, Yalitza Aparicio, Alfonso Cuaron and Gabriela Rodriguez
Deadline Contenders, Arrivals, Los Angeles, USA – 03 Nov 2018

1