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A Frente Fria que a Chuva Traz (Now)

A Frente Fria que a Chuva Traz (Now)

Liderados por Alison (Johnny Massaro), um grupo de jovens ricos aluga com frequência uma laje na favela carioca do Vidigal, onde costuma organizar festas regadas a muita bebida e drogas. O local pertence a Gru (Flávio Bauraqui), que vive rondando os locatários, ora reclamando dos abusos cometidos ora simplesmente sonhando em fazer parte daquela realidade. Durante o dia vários deles permanecem no local, aproveitando a bela vista para se bronzear. Uma delas é Amsterdã (Bruna Linzmeyer), uma jovem pobre que se infiltra nas festas dos ricos para conseguir drogas, mesmo que para tanto precise fazer favores sexuais como pagamento.

Por mais que tenha no currículo sucessos do porte de A Dama do Lotação (4º maior público do cinema brasileiro em todos os tempos) e Os Sete GatinhosNeville D’Almeida ficou longos 18 anos ausente dos filmes de ficção. Consequência não apenas das dificuldades em filmar após a extinção da Embrafilme, mas especialmente em se adequar à realidade da Lei Rouanet, onde boa parte do financiamento vem do próprio mercado, que costuma escolher projetos mais palatáveis – algo que o diretor nunca buscou ser, sempre escancarando perversões e falsos pudores.

A Frente Fria Que a Chuva Traz - FotoEm meio a tantas dificuldades, o projeto que enfim conseguiu tirar da gaveta foi a adaptação cinematográfica da peça teatral “A Frente Fria que a Chuva Traz”, de Mario Bortolotto – que, não por acaso, interpreta o segurança. Uma escolha condizente com a carreira do diretor, pelo tom incisivo e provocador que mantém do início ao fim, ao retratar uma juventude que acredita que o mundo está a lhe servir. Endinheirada e sem escrúpulos, ela vive pelo prazer a todo instante e uma felicidade constante, mesmo que esta seja ilusória. Não importa. Que venha a próxima dose, e de preferência rápido! Porque a vida é uma festa, que precisa ser aproveitada o quanto antes.

O início de A Frente Fria Que a Chuva Traz, o filme, logo ressalta os dois contrastes que serão trabalhados durante todo o longa-metragem: a laje localizada em plena favela com uma vista exuberante; os jovens endinheirados e os representantes da massa assalariada, que se equilibram entre a necessidade do dinheiro pago, o desprezo pelo modo com que agem e um certo deslumbre pela vida que levam. Tivessem eles dinheiro, agiriam diferente? O filme não diz, mas levanta a questão. Neville e Bortolotto (o autor) pretendem esmiuçar estas relações azedas existentes entre ricos e pobres, mas sem levantar questões panfletárias sobre classes sociais. O objetivo aqui é oferecer um retrato, escroto e até sádico, sobre um estilo de vida. Simples assim.

A Frente Fria Que a Chuva Traz - FotoConceitualmente, há vários aspectos interessantes no longa-metragem. A denúncia sobre a miséria humana de uma juventude endinheirada é um deles, bem como a consciência forçada de Amsterdã, personagem de Bruna Linzmeyer. Na verdade, ela é a única que difere daquele mundo de corpos brancos e sarados, sempre enfiados em roupas de grife, cuja personalidade é idêntica. Amsterdã também se droga, também se embebeda e faz parte da turma… mas é pobre e, como tal, precisa se sujeitar a humilhações e caprichos para manter o vício. A consciência de sua posição neste jogo sórdido rende um punhado de frases cínicas que, além de cutucar feridas, demonstra o talento de uma atriz que ousou sair de sua zona de conforto. Entretanto, não é dela a melhor atuação em A Frente Fria que a Chuva Traz. O posto pertence a Johnny Massaro e seu sorriso sempre cínico, avaliando todos à sua volta.

Entretanto, nem tudo são flores. Por mais que tenha méritos consideráveis, não apenas pelo conteúdo entregue mas também pela sequência de panorâmicas envolvendo a favela e a laje, A Frente Fria que a Chuva Traz é um filme irregular em relação ao elenco. Vários diálogos soam artificiais, em parte por uma certa entonação exagerada, o que também acontece quando a narrativa deixa a própria laje, resultando em situações fake envolvendo os moradores locais – a cena do estupro é o melhor exemplo, com uma violência contida que jamais convence. Estranha também o fato deste ser o filme mais “comportado” de Neville d’Almeida, conhecido justamente pelo cinema marginal, devido à opção em externar a violência através da verborragia. Mais uma vez a sensação de teatralidade se faz presente, causando uma artificialidade na proposta de um grupo de jovens endinheirados indo e vindo a todo instante em uma favela carioca. Fora a metáfora ingênua que encerra o longa-metragem, envolvendo Amsterdã, e o tom “filosófico de botequim” envolvendo os novos tempos que estão prestes a chegar.

De certa forma, é fácil não gostar de A Frente Fria que a Chuva Traz. A realidade de Alisson e seus amigos afugenta e provoca asco, pelo modo com as pessoas são tratadas e representadas. Entretanto, o ponto forte do filme é justamente este. Em sua volta ao cinema, Neville entrega um universo odioso e irritante, que abusa do discurso vazio para se justificar, mas que faz parte da sociedade atual. É como denúncia de uma realidade torta que o filme deve ser encarado, por mais que também possua problemas que atrapalhem seu desenvolvimento narrativo.

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