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Rasga Coração (Now)

Rasga Coração (Now)

Manguari Pistolão (Marco Ricca) é ao mesmo tempo um herói e um homem comum. Atuante na militância em boa parte da vida, agora ele terá que enfrentar o mesmo que seu pai enfrentou: o seu filho Luca (Chay Suede) pretende deixar a faculdade de Medicina e ingressar de vez no movimento hippie. Em um crescente conflito com as escolhas do filho, ele verá seu passado sendo reiventado na figura dele.

Existe algo curioso na psicologia das lutas sociais: muito mais difícil do que compreender porque as pessoas se revoltam contra o sistema, é entender porque param de se revoltar. Se a história guarda as trajetórias de militantismo com orgulho ou desdém – dependendo do lado do espectro político em que você se encontre –, pouco se diz sobre o esfacelamento dos movimentos, a dissolução dos grupos e a adesão, ainda que parcial, ao sistema criticado como forma de sobrevivência. Muitos jovens devem ter estudado como começou, e como se desenvolveu, o maio de 1968 na França. Mas de que modo ele terminou? Acima de tudo, que impacto aquele instante produziu nas gerações posteriores?

 

Rasga Coração busca compreender, com generosa dose de afeto, a herança da resistência contra a ditadura militar no Brasil de hoje. O símbolo principal destas gerações é Manguari Pistolão (Marco Ricca), pai de família que praticava, em sua juventude, a resistência contra os militares. “É por causa de política que ele não subiu na vida”, lembra a mãe conformista que, no entanto, ama o marido e compreende sua verve questionadora. Em seu tempo, o jovem Manguari (interpretado por João Pedro Zappa) lutava nas ruas, enfrentava a tortura dos militares, rejeitava o patriotismo belicoso. Décadas mais tarde, ele trabalha todos os dias na mesma repartição, distante de disputas políticas, até perceber o filho adolescente (Chay Suede) aderindo a novas formas de protesto.

 

 

O roteiro é rico em discussões sobre as mais diversas formas e razões de lutar, entre os séculos XX e XXI. Hoje o filho é vegano, buscando um tipo de revolução do corpo que o pai não entende. Na sua época, os combates eram coletivos, nas ruas, com panfletos, ações sociais, gritos de ordem. Tempos depois, os jovens querem lutar pelo direito de homens usarem saias, mulheres disporem de seus corpos como bem entenderem. O mérito do texto é perceber que estes combates são idênticos em sua essência (por apoiarem a liberdade do indivíduo, a distribuição de renda e o combate às opressões), mas distintos em suas características culturais e formas de atuação.

 

“Nossa dor é perceber / Que apesar de termos feito tudo o que fizemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos como nossos pais”, cantava Elis Regina, numa canção que descreveria perfeitamente o misto de orgulho e decepção que contamina os atores contemporâneos das lutas de ontem. Ou ainda: “As coisas podem parecer novas para você, mas o mundo é cheio de velhos problemas”, como explica o pai ao filho. Esta comparação entre gerações é feita de modo clássico pela montagem, que alterna imagens do presente e do passado, comparando com humor e leveza as lutas de Manguari e aquelas do filho Luca. O mundo mudou, mudou e continuou igual. Como não perder a coragem depois de tanto tempo e tanto sangue investido na causa?

 

É muito belo, e um tanto ingênuo, perceber o pai reganhando forças de lutar devido ao filho, mesmo que não se adeque aos novos tempos. Rasga Coração é um filme impregnado de nostalgia, uma espécie de tom crepuscular visto na câmera que passeia pela fachada dos prédios anônimos, nos preços das compras no supermercado, no cadáver abandonado ao meio-fio, que ninguém vem buscar. Furtado, que sempre soube equilibrar drama, comédia e crítica social como ninguém, retorna à melhor forma ao dirigir Marco Ricca, comovente em seus pequenos gestos e olhares no parapeito da janela, Drica Moraes, sempre tão talentosa com diálogos, capaz de passar da raiva à comédia em segundos, e Chay Suede, uma presença indispensável do novo cinema brasileiro, de estilo despojado e natural.

 

 

A interação entre eles é tão realista quanto verossímil, em decorrência dos excelentes diálogos e da coreografia discreta da câmera no apartamento, invisível em sua transição de corpo a corpo, de rosto a rosto. O cineasta nunca foi vaidoso, jamais buscou grandes estripulias de câmera, e sua precisão se torna ainda mais afiada e contida neste caso. As cenas do passado, igualmente, transbordam carinho e vigor juvenil, ainda que o histrionismo de Bundinha (George Sauma), por mais divertido e bem atuado que seja, soe cansativo pela ausência de variações. Mas Zappa e os demais atores deste núcleo se saem muitíssimo bem na crônica dos prazeres e excessos da juventude.

 

Rasga Coração se encerra com uma cena comovente, espécie de constatação que as lutas são feitas de concessões e rupturas. É preciso destruir um sistema para construir outro no lugar, diriam os revolucionários do século XX. Após tantas discussões políticas e ideológicas, o filho enfim se sente pronto para olhar o futuro e seguir em frente. Enquanto isso, o pai enfim encara os traumas do passado e relembra tanto o furor da juventude quando o cansaço que o levaram à vida de comodidades. Ninguém está certo, nem errado em seu modo de agir. Na calçada em frente ao imóvel, a mancha de sangue do cadáver abandonado relembra as marcas que não se apagam mais.

 

Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.

Em uma das primeiras cenas de Rasga Coração, adaptação da peça homônima de Oduvaldo Vianna Filho, Custódio (Marco Ricca) e Nena (Drica Moraes) discutem as despesas deixadas por seu filho Luca (Chay Suede), que seria o pesadelo encarnado de alguns pais: ativista, vegano e completamente rebelde. O pai, que era ativista quando jovem e agora ocupa um cargo burocrático no trabalho, abre mão de investimentos básicos para sustentar os gostos particulares do filho, e faz isso de bom grado – mas até quando?

Essa tensão percorre todo o filme, dirigido por Jorge Furtado (Saneamento Básico: O Filme). Em paralelo ao dia a dia atual de Custódio como pai, acompanhamos cenas de sua carregada juventude militante, apelidado como Manguari Pistolão (João Pedro Zappa). No caso de quem não conhece o material original – que nem esse cara aqui -, só passamos a saber disso um pouco mais à frente, numa decisão simples mas muito inteligente do roteiro, assinado por Furtado, Ana Luiza Azevedo e Vicente Moreno, que transpõe a trama original escrita na década de 70 para os dias atuais.

Contando com a montagem dinâmica de Giba Assis Brasil para tecer comparações diretas entre gerações, a adaptação de Furtado ganha grande peso emocional e satírico por ser tão próxima às realidades de muitas famílias de classe média, especialmente aquelas cujos integrantes mais jovens podem ser descritos mais precisamente como “de humanas”. Contudo, por mais que existam fortes elementos de sátira inseridos no texto e até mesmo na execução visual do longa, Rasga Coração nunca recorre a caricaturas e nem debocha de seus personagens.

Cada personagem pode de fato possuir uma personalidade muito marcada, alguns até sendo completos estereótipos, mas neles há sempre uma dimensão adicional prestes a se revelar. Mesmo o pai de Custódio, jocosamente apelidado de 666 (Nélson Diniz) e inicialmente contrastado como um sujeito muito mais ríspido que o filho em suas funções paternas, mostra uma compreensão inesperada a certo ponto, como se reconhecesse sua rispidez como uma obrigação sem sentido. Neste caso, a tipificação das personagens ajuda também a universalizar os sentidos do enredo com mais eficiência.

Por mais que o foco seja na figura de Custódio, que rumina sobre seu próprio passado e passa por uma desconstrução, pode-se dizer que novas camadas de Luca ficam aparentes no processo. Ambos “fogem do poder” em suas respectivas juventudes, desacreditados com o sistema que impera, mas não poderiam estar mais distantes pelos diferentes contextos vividos. Embora a obra nunca desmereça o ativismo de Luca, nota-se que, do pai ao filho, essa rebeldia perde significado, tornando-se muito mais uma atitude simbólica ou mesmo recreativa.

Na justaposição entre passado e presente, percebe-se uma diferença gritante entre os ativismos de ontem e hoje. Enquanto Custódio põe a cara a tapa em plena ditadura militar, sofrendo duras consequências por seus atos, Luca e seus amigos militantes depredam sua escola particular quase como uma recreação, um rolê. O longa também faz provocações oportunas sobre a falta de alteridade no ativismo jovem de classe média, que por vezes exclui outras vozes e deixa de rever estratégias. Por isso, a figura de Talita (Cinândrea Guterrez), uma jovem negra e filha de um antigo camarada de Custódio, denota a falta de interseccionalismo na causa dos colegas quando desvalorizam sua fala – e uma profunda ignorância deles quanto às heranças da garota.

Assim, quando o roteiro passa a situar Talita a Luca no mesmo espaço, fica cada vez mais perceptível que o problema do rapaz não é a rebeldia, mas sua falta de perspectiva individual. Enquanto ele despreza a ideia de ir à faculdade ou prestar vestibulares, a garota vê tais oportunidades como um sonho – ainda assim, o desejo dela de se adequar ao sistema não faz dela menos militante e nem anula suas heranças culturais e políticas. Apesar do engajamento político, Luca tem o privilégio do tempo, do conforto, e parece driblar obrigações para que isso continue assim.

Dessa maneira, vai se revelando um estudo de Luca como um jovem que adia a chegada da vida adulta, vendo sua postura ativista mais como o próprio objetivo do que um caminho para seu futuro. Por isso, é de uma grande beleza ver que o pai, inicialmente a figura acomodada e careta, reencontre suas formas de expressão e seja aquele a tirar o filho da acomodação. Em uma sequência que praticamente cola duas discussões familiares, Custódio muda sua atitude e expõe seus pontos de vista num diálogo estarrecedor, revelando-se um sujeito muito mais observador do que seu filho acreditava.

Porém, mesmo com sua densidade temática e tudo mais, o filme de Furtado consegue ser muito mais bem-humorado do que se espera. O diretor acerta o timing das situações com seus atores, que, diga-se de passagem, estão excelentes. Ricca, Moraes e Suede formam uma tríade poderosa em cena, cada um dominando bem seu papel. Enquanto isso, em flashbacks, Zappa faz um bom trabalho como o jovem Custódio, e George Sauma traz uma camada de angústia ao escandaloso Lorde Bundinha – suas cenas, no entanto, são as mais teatrais em registro, e acabam destoando das demais.

Ambientado na maior parte do tempo dentro de um apartamento, Rasga Coração se apropria de momentos domésticos muito comuns para falar sobre o mundo, da “imensa solidão” de gente que não teve escolhas, da crença dessas mesmas pessoas de que tudo vai melhorar. Mas outra coisa fica bem clara: é justamente pelo mundo ser cheio de velhos problemas, que o novo tem tanto a aprender com o velho. No caso, o velho pode vir na forma aquele pai careta, cansado e cheio de dores no corpo, mas que com certeza viveu e aprendeu muito mais do que ele mesmo imagina.

 

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