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Sesi Macaé (Riviera)

Eu & Elas – Andréa Martins no Teatro do Sesi Macaé

Sesi Macaé Aprovado no Conselho de Classe

Sesi Macaé Aprovado no Conselho de Classe

GUILHERME KROLL

‘O Sesi Macaé continua nos proporcionando deliciosas viagens culturais. Quinta-feira, viajei no tempo. Revivi meus tempos de Cap Uerj, e de longa convivência com muitas adoradas colegas da rede pública. A imagem da Regina Santana e da Rosângela Ganem, minhas irmãs da turma 78 da UERJ, não saiu da minha frente. O que posso fazer?

Minha formação inicial foi licenciatura em Educação Física. A identificação com a peça foi inevitável. Aliás, ela me ajudou a entender melhor a razão em ter optado por seguir por outros caminhos na minha longa jornada profissional. Estou muito agradecido.   

Conselho de Classe’, sucesso teatral interpretado pela Cia. dos Atores, com texto do dramaturgo Jô Bilac e direção de Bel Garcia  e Suzana Ribeiro, e que já foi visto  por mais de 30 mil pessoas, foi a atração do teatro do Sesi Macaé dessa semana.

A sacada de se colocar atores homens representando professoras mulheres foi genial. E eles foram perfeitos na representação, sem serem caricatos. O sacoleiro foi fantástico.

Dentro dos muros da escola na Cia. dos Atores

Na peça, o grupo põe em discussão questões candentes da educação no País. Em um colégio público do centro do Rio, em pleno verão, alguns professores se reúnem para discutir os rumos da instituição. Antes que o próximo ano letivo se inicie, eles precisam dar conta dos últimos acontecimentos: estão todos ainda abalados por um ataque de violência de alguns alunos, que se rebelaram contra uma proibição e agrediram a então diretora – hospitalizada e afastada do cargo.
O encontro de docentes, porém, é interrompido pela chegada imprevista de um novo diretor, chamado para assumir interinamente a condução da escola e munido de conceitos e ideias que vão desestabilizar a ordem vigente.   

É em meio a esse embate que Jô Bilac esmiúça a problemática do ensino. Com a consultoria pedagógica de Cleia Ferreira, ele destrincha temáticas de apelo mais universal. O ensino formal tornou-se desinteressante e, não raro, ineficiente, em muitos países. Os jovens têm outras fontes de informação, não mais aceitam a hierarquia a separar professores e alunos nem os antigos códigos de conduta. Nesse processo, questiona-se, por exemplo, que papel poderiam ocupar a arte ou o esporte.
Por sua vez, feridas que dizem respeito especificamente à situação brasileira também são abordadas. A ausência de qualquer estímulo à carreira do professor público é um desses fulcros insolúveis. Apenas para o Ministério da Educação, o orçamento aprovado em 2013 era de R$ 81,1 bilhões. Fica evidente, portanto, que o problema não está circunscrito à carência de recursos financeiros. Esbarra, essencialmente, na ausência de planejamento e na inabilidade dos gestores.
Relações de poder e a micropolítica que regem o ambiente escolar também são abordadas na trama. Os personagens encarnam tipos reconhecíveis: a professora mais experiente, que ouve as opiniões de todos, aquela que se vale da estrutura do colégio em benefício dos próprios negócios e interesses, a outra que defende a ordem acima de todas as coisas. “São figuras representativas, quase arquetípicas desse universo”, pontua Susana Ribeiro.
O realismo mencionado pelas diretoras não deve se esgotar no texto ou no estilo de representação dos atores. É também na encenação que tal ambição se coloca. Não há canções na trilha sonora. Discreta, a luz de Maneco Quinderé não vem para conferir aspecto “artístico” ao que acontece. “É antes um jogo de sombra e luz. Tentando trazer para a cena o aspecto mais real possível”, considera Bel.   
Para servir de cenário à reunião de professores, existe uma desolada quadra de esportes. Assinada por Aurora dos Campos, a cenografia concorre ao próximo Prêmio Shell de Teatro, assim como a direção e o autor. O período de ensaios e estreia da montagem no Rio foi marcado, coincidentemente, pelas manifestações que tomavam a cidade. Na época, professores também saíram às ruas para protestar e foram coibidos pela polícia.
“Mas não foi uma decisão oportunista”, ressalva Susana. “O texto já estava sendo escrito havia dois anos. E, mesmo sem querer, a peça acabava reverberando o que estava em pauta nas manifestações.” O barulho dos helicópteros e das bombas de efeito moral são utilizados como sonoplastia que contamina o ambiente.


Apenas um elemento é convocado para servir de ruído a esse vínculo pretendido com o real, trazendo mais uma camada à apreensão da obra: para tratar de um mundo eminentemente feminino como o da educação, tomado por educadoras e pedagogas, o elenco escolhido é exclusivamente masculino: são cinco homens no palco. “Pode servir para relativizar a questão de gêneros, mas também abre a possibilidade de outras leituras do espectador”, acredita Bel.
A óbvia conotação política do enredo não impede que os diálogos estejam contaminados pelo humor: traço comum tanto a Jô Bilac quanto à Cia. dos Atores. A plateia é instada a rir dos dilemas morais desses personagens. E a deixar-se conduzir por um jogo intrincado, em que ninguém está completamente certo ou errado.

“Conselho de Classe” um espetáculo necessário, que apesar de darmos enormes gargalhadas ao longo de toda sua representação, acaba sendo um elegante tapa na nossa cara, espectadores, que já passamos igualmente da indignação para a resignação.

Elenco: César Augusto, Thierry Trémouroux, Rodrigo Ostrower, Marcelo Olinto e Leonardo Netto.

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